A Viagem - Dias 1 e 2

Dia 1…

Britney apertou o passo; estava atrasada. No caminho até o saguão de embarque VIP do aeroporto de Guarulhos, pensava sobre o beijo (que nem beijo direito foi na verdade) de alguns minutos atrás e a cara de Ranmaru. Um misto de vergonha e alívio (esse último bem maior) rondavam seus pensamentos, o que a deixaram bem distraída, fazendo com que esbarrasse em pelo menos umas três outras pessoas até chegar lá. Ela ainda não se acostumara com a mente tendo que realmente pensar em uma coisa por vez desde o Silêncio de Curitiba.

E quase sem parar na sala de espera, ela já desce o elevador e um pequeno carro leva ela e sua bagagem até um jatinho, onde uma aeromoça a recepciona e a leva para a sala de viagem do avião. “Caralho… que lugar… foda” é o primeiro pensamento dela: O lugar parecia mais um lounge de um hotel 5 estrelas do que qualquer coisa que qualquer tipo de transporte.

- Fique a vontade, senhorita Ranseur, o senhor Ronald chegará a qualquer momento – diz a aeromoça, o que foi a senha para que ela sentasse na convidativa e macia poltrona. E realmente depois de alguns poucos minutos, Britney vê pela janela um carro oficial do aeroporto parando, e a familiar figura de Ronald, que se não fosse pelo belíssimo terno que usava, lembraria o mesmo Ronald que a 5 anos atrás se despediu dela para ir estudar na Europa, descendo e falando ao telefone ao mesmo tempo em que conversava com uma bela mulher de cabelos loiros que ao que parece, anotava algo em um palmtop.

Lembranças de anos atrás invadiam a mente de Britney, mas ela se controlou e se levantou. Haveria tempo suficiente para refletir, lembrar e conversar sobre todas elas. Ronald, ainda do lado de fora, terminava de falar ao celular. Despede-se e dá algumas instruções para a Srta. Peanney, tira seus óculos de sol e adentra a aeronave.

Encontra uma Britney um tanto diferente da que se despedira anos atrás. Um pouco mais musculosa do que a “magrela” de antes e roupas diferentes do tradicional jeans e camiseta que sempre costumava usar antes. Os cabelos um pouco mais curtos, os mesmos olhos sem cor definida e o mesmo sorriso afetuoso de antes, que ela deu antes de ir até ele.

- Naldo!

- Brit…. Magrela!

O abraço durou pouco mais de dez segundos, mas para Britney pareceu mais que foram horas, devido as dezenas de sentimentos e sensações que a invadiram. Lembranças da infância, de Eliza, de Pai Galo, do tempo da escola, do primeiro encontro com Ronald onde ela foi vomitada, da separação, de suas experiências com a magia, a vez que conheceu Ranmaru na Capela de Veian e do link mental que começou na semana dos pesadelos. Ela até ficou um pouco tonta com o quantidade de informações que passaram em tão pouco tempo. E em seu coração, sentiu duas certezas brotarem. E junto com elas, algumas dezenas de temores, porém, todos pequenos em comparação com as duas. Pequenos, porém ainda existentes.

O aviso do piloto, que já estava atrasado, faz os dois se sentarem. E durante a decolagem, o principal assunto é sobre a compra do jornal. Britney está surpresa com a fortuna de Ronald, e este está surpreso com os lugares onde ela foi meter o nariz em suas reportagens. Subitamente, porém, Britney fica em silêncio. Por um momento, viu-se como o passageiro de um pesado carro que acabara de fazer uma curva perigosa.

- Tudo bem com você, Britney?

- Tudo sim Naldo, relaxa, acho que é só tontura da decolagem. Mas continua falando das aplicações que fez.

- Certo, bom, nós vamos pousar em Recife, onde pegaremos um avião comercial até Paris. Mas, respondendo sua pergunta, num dos grupos de trabalho da universidade….

Ronald seguiu contando sobre suas primeiras empreitadas no mundo financeiro, muitas vezes tendo que forçar um pouco a memória. Estava acostumado com a curiosidade de Britney, mas o fato desta ter se tornado uma reporter lhe ensinou a perguntar da maneira a não faltar nada para deixar de ser dito. E a conversa fluia naturamente, com alguns ares de entrevista as vezes, mas naturalmente, quando subitamente o capitão avisa pelo sistema de som que a nave já se encontrava na altura e velocidade de cruzeiro, e que caso quisessem, já estariam liberados para levantarem caso quisessem.

- Ótimo! – exclamou Ronald, se levantando indo ao pequeno barzinho localizado na parte de trás da sala onde estavam – estava esperando para poder pegar isso – e pegava uma garrafa verde, o que parecia champagne e duas taças de cristal.

- Naldo! Você sabe que não faz bem beber em viagens aereas longas. – O tempo parecia que voltava, Britney censurava o ex-namorado com o mesmo tom de quando o fazia anos atrás.

Ronald sorri com a isca que foi mordida, e com um leve sorriso emenda:

- Olhe antes, e mude de ideia.

Ela vira, e exclama:

- Bessera de Bellefon!! Achei que nunca mais veria um desses!

- Devo presumir que você vai aceitar então?

- Bom, eu não teria como recusar.

- Certo, a que brindaremos então? – pergunta ele enquanto enche as duas taças.

- Pour notre voyage?(Nossa Viagem?) – Britney pergunta erguendo a taça.

- Pour Paris! (Por Paris) – Ronald responde.

Britney sente a mesma estranha tontura de antes na hora do brinde, porém de uma maneira mais rápida que a de antes. Volta a sentar em sua poltrona, olha pela janela por alguns instantes e volta a puxar algum assunto qualquer sobre o passado. A conversa, mais informal agora, fala apenas de casos engraçados e bizarros da época de faculdade dos dois. E como em toda conversa que envolve risadas, ambos nem percebem o tempo passar, e mais uma vez a voz do capitão avisando que iriam pousar em Recife em poucos minutos os pega de surpresa.

Como já estavam um tanto atrasados, nem tiveram tempo para nada. Desceram do jatinho e já embarcaram no Airbus A330 da AirFrance, se dirigindo para a primeira classe. E embora suas poltronas (que como em toda primeira classe, mais pareciam camas) fossem uma do lado da outra e permitissem que a animada conversa continuasse, a combinação de uma garrafa de Champagne mais o primeiro pouso juntamente com a nova decolagem e a pressão levemente menor de uma aeronave maior fez com que os dois dormissem a maior parte da viagem.

Ronald acordou primeiro e ficou reparando como Britney ainda dormia de lado, sem retirar o cabelo de debaixo do rosto (motivo pelo qual quase sempre acordava com a cara marcada). Por alguns momentos ficou pensando em como poderia ser sua vida caso não tivesse ido estudar na Inglaterra. Lembou do seu primeiro contato com o Sindicato, ainda na faculdade, o que o levou a uma rotina de trabalho que para muitos pareceria matadora. Lembra-se de seu antigo Diretor dando-lhe a árdua tarefa de cortar suas ligações com as pessoas próximas para que sua Iuminação ocorresse sem maiores transtornos. Lembra também dos emails e cartas que Britney mandou nessa época assustados ou se queixando desse sumiço. Dentro de si, sentia uma pontada de culpa por não ter mandado toda aquela história para as favas ter continuado com sua vida como era antes. Sem ter perdido o contato com ela, e com diversos outros amigos.

Porém, sabia que isso era impossível. Britney entenderia isso, se tivesse a consciência e a capacidade de entender quão grandioso e complexo era aquilo que fazia e que protegia. Afinal, tinha sido ela própria que resgatou nele o conceito de cuidar de outra pessoa, não importa quem fosse, e a importancia de proteger os com menos condições. E acima de tudo, isso fazia parte da promessa que havia feito a ela, no dia da despedida no aeroporto. Pensava também no que ele mesmo queria com esse reencontro. O abraço dela mostrava que algo ainda existia entre os dois. Ou seria impressão dele?

Britney sonhava com o Brasil, com sua infância. Com o pai que pouco via, com seu cãozinho Fringles, com os dias perdidos no quintal, com seus amigos invisíveis de infância, nesses sonhos onde sequencias de acontecimentos bizarros e sem sentido são comuns. Ela acorda e vê Ronald olhando para ela, mas ao que parece perdido em devaneios.

- Quanto tempo já passou? – Ela pergunta, bocejando, enquanto senta e se espreguiça.

- Não sei Magrela… acordei faz pouco tempo também. Mas acho que dormimos bastante.

Britney então liga o pequeno computador de bordo e vê que realmente dormiram muito. Quase que uma noite de sono, dormiram 6 horas. Ela ri e relembra Ronald dos perigos de bebida no alto e faz um trocadilho idiota sobre “deixar mais alto ainda”. Pedem então um lanche para a aeromoça e passam quase que todo o restante da viagem assistindo filmes e lembrando de situações engraçadas de quando foram ao cinema. Britney percebe que Ronald está tentando se aproximar um pouco mais do que no início da viagem, e discretamente, mantém um limite de distância, tanto físico quanto na conversa.

Mais algumas horas e uns dois filmes passam, e finalmente é anunciado que iriam pousar. Chegaram no final da madrugada Parisiense, e Britney se perde em devaneios sobre a “viagem no tempo” que acabara de fazer, pois no Brasil, os últimos momentos de ontem (ainda hoje para ela) estariam acabando. Volta a realidade com Ronald falando com o taxista (nem havia se dado conta de que já desembarcaram, pegaram as bagagens e entraram num taxi):

- Prenez-nous à l’Hôtel Napoléon s’il vous plaît. (Por favor, leve-nos ao Hotel Napoleon)

- Oui, monsieur (sim senhor) – Responde, com um forte sotaque árabe o taxista – Vous êtes venu passer la lune de miel à Paris? (Vocês vieram passar a lua de mel em Paris?)

- Non!! (não) – Os dois respondem ao mesmo tempo – Nous sommes juste de vieux amis se promener dans Paris! (Somos apenas velhos amigos passeando em Paris) – Britney emenda, olhando para Ronald, que concorda com um sorriso bobo.

O Hotel não é muito distante, e rapidamente eles chegam. Enquanto Ronald vai até a recepção para o check-in, Britney vai até os telefones e liga para a Capela, onde acaba conversando apenas com Lady Shannon. Ela desliga e vai até Ronald, que diz que já estavam levando as coisas para o quarto deles.

- Nosso quarto? Peraí Ronald, você pegou um quarto só?? – Lembranças sobre Curitiba começavam a invadir Britney.

- Bom, eu não sei né, não sabia em que pé nós estariamos – e Britney vê uma pontada de seriedade no que ele falou – Então eu tomei o cuidado de pegar a suíte presidencial executiva, e não a de casais. Não se preocupe, deve ter uns três dormitórios separados nessa suíte – e Ronald dá o tradicional sorriso irônico de conclusão de algum assunto. Britney percebeu que ele devia estar assim por causa do comentário no Taxi.

E realmente era um apartamento imenso. Haviam 3 dormitórios, uma grande sala de reunião, uma cozinha e duas salas de estar. Britney escolheu um dos quartos e começou a desfazer as malas. Ronald disse que ia descansar um pouco da viagem, que lá pelas onze ele acordaria para irem comer e começar a planejar um roteiro. Britney concordou, e após arrumar tomar um rápido banho suas roupas nos armários, foi ver o nascer do sol da sacada, indo tirar um cochilo para decansar em seguida.

Dia 2

Britney acordou por volta de umas dez e meia, e se vestindo um dos robes do hotel por cima do pijama, sai do quarto para ir até a cozinha. Para sua surpresa, a mesma secretária que tinha visto com Ronald no dia anterior ali estava, com uma caneca enorme do que parecia café, concentrada no notebook.

- Bom dia? – Cumprimenta Britney curiosa.

- Ah, desculpe senhorita Britney, eu nem percebi que acordou, ainda estou com a cabeça bagunçada pela viagem. Eu sou Elizabeth Peanney, mas pode me chamar apenas de Betty ou Peanney.

Subitamente, Ronald sai de sua suíte, também num robe do hotel:

- Bom dia Magrela! Ah! Bom dia senhorita Peanney, que bom que já chegou, como foi de viagem?

- Bastante tranquila senhor Ronald, aproveitei para dormir para que eu pudesse aproveitar o dia por aqui.

- Ótimo, excelente ideia. Os papeis dos advogados da Hommel ficaram prontos?

- Sim, mas como sempre eles querem uma posição quanto a cláusula décima terceira do contrato de venda, a qual eu já adiantei como sendo total e sem refundo. Sim, eles argumentaram ser arriscado demais, e sim, eu já mandei um prospecto com o relatório de faturamentos e gastos dos últimos 6 meses, bem como a não necessidade que tivemos de auxílio do BNDS, o que so deixou satisfeitos. Tão satisfeitos que quiseram concluir o negócio ontem mesmo, e visto que eu teria que vir para cá, eu comprei passagens e fiz reservas para todos eles para que possamos assinar tudo amanhã.

- Mas que maravilha senhorita Peanney. E os papéis…

- Do empréstimo do escritório de seu pai já foram quitados também. A procuração daquele tal de Mesquita que estava fazendo as besteiras também já foi anulada. O cartão que o senhor perdeu também já foi encontrado, ao que parece alguem gastou em algum prostíbulo em São Paulo.

Britney sentia como se não estivesse ali, imaginou-se como uma prateleira de um escritório de finanças assistindo a uma reunião qualquer. E para tentar quebrar o gelo perguntou:

- Betty, Naldo, vou pedir o café da manhã, o que vocês querem? Eu estou louca para experimentar os…

- Waffles daqui certo? Eu já pedi o café da manhã, apenas mandei deixar em standby até vocês acordarem. Eu pedi quatro para você, com calda de chocolate meio amargo para você e os cookies integrais para o senhor Ronald. Chá preto para a senhorita e café espresso para ele. Pedi para mim alguns desses waffles porque fiquei curiosa… a senhorita queria algo mais???

- Magrela??

Britney tinha ficado boquiaberta com a eficiência quase que assustadora dela, e acabou perdendo o tempo da resposta:

- Ah, não não, tá perfeito, eu, eu vou me trocar.

Seria ingênuo dizer que Britney não estava se sentindo acuada com a presença da senhorita Peanney. Seria também exagero dizer que era algo banal como ciúme. Ela estava estranhando tudo aquilo. Preferiu não pensar muito nisso, e os deliciosos waffles ajudaram ela a não encanar muito com isso. Enquanto comiam, Ronald falou:

- O dia hoje vai ser meio corrido, eu tenho que me econtrar com umas 10 pessoas diferentes…

- Dezoito! – Corrige srta. Peanney.

- É, dezoito. Vou passar praticamente grande parte da tarde nisso, ainda mais porque ela vai me ajudar com alguns. Alguns dos correspondentes internacionais do jornal vão querer conversar com você também. Como você me contou da sua iniciativa em mudar o departamento policial para departamento de jornalismo investigativo, meus parabéns, você agora também é responsável pelo andamento das matérias desse caráter fora do país.

Britney ia dizer algo mas a srta. Peanney foi mais rápida:

- Eu agendei um almoço com o sr. Manollo, ele é o chefe dos correspondentes daqui. Após isso vocês irão se reunir com Richard Le Monier, um dos redatores chefes da Reuters.

Ela mais uma vez arregala os olhos, mas se recompõe mais rapidamente e emenda a piada.

- Ainda bem que você dispensou sua secretária Naldo, ela não teria como competir com esse computador de última geração que a Betty é!

Ronald, como sempre, ri das piadas sem graça de Britney. A srta Peanney segura o riso por alguns instantes, olha para os dois e completa:

- É…. eu iria ter uma semana de férias, mas maldita hora que fui perguntar “tem certeza que não vai precisar de mim??” Um dia desses eu ainda aproveito um final de semana em sua totalidade!

Todos terminam o café rindo, mas Britney percebe uma pequenina, quase imperceptivel, pontinha de tristeza nela. E quando já estavam quase que saindo da mesa, ela fala num tom imitando Ronald:

- Senhorita Peanney, cancele os meus e os seus compromissos de amanhã pela manhã! Anote um novo; Compras com Britney. Enfatize o fato de não esquecer esquecer o cartão do senhor Paula Andrade.

Ronald, como sempre ri, até perceber a troca de olhares das duas, que em seguida olham para ele.

- Algum adendo senhorita Britney? – e realmente ela começa a mudar apontamentos em seu palmtop.

- Sim – e mais uma vez troca olhares com ela e com Ronald – restrito apenas para meninas.

Ronald faz a tradicional cara de homem perdido em meio a maquinações femininas, enquanto as duas morrem de rir. Em seguida, vão terminar de se arrumar e cada um parte para seus afazeres.

Grande parte da tarde foi chata, o senhor Manollo era um daqueles conservadores que adorava falar mal do Brasil ou de qualquer coisa fora do primeiro mundo caso a oportunidade pedisse ou não. A reunião na Reuters, por outro lado, foi deveras construtiva, e uma futura parceria foi plantada, com uma nova reunião marcada para o futuro.

Por volta das 5 da tarde, eles se reencontraram em um café da Champs-Elysées, Britney tomando um chá e Betty e Ronald tomando cada qual seu tipo de café favorito. Ainda estavam absortos no trabalho da tarde, cada um em seu notebook e perdidos em telefonemas. Britney porém tentava mais uma vez falar com a Capela e Ranmaru, mas outra vez acaba falando apenas com Lady Shannon, e descobre sobre o corpo de Amarildo. Descobre também que tá sendo “seguida” por Uáshinton e sente uma pontada de proteção no coração. Porém, antes falasse mais, Ronald fecha o laptop dizendo que “chega de trabalho por hoje”.

Ela ainda tentou ligar para o celular de Jonathan algumas vezes antes de desistir. A srta Peanney foi tratar dos negócios que ficaram inacabados durante a tarde, e Ronald levou Britney para visitar uma parte do Louvre. Ele sabia que ela iria acabar indo de uma forma ou de outra nos dias vindouros, e como é impossível ver tudo em um dia só (até mesmo em dois), ele resolveu estar junto dela em uma dessas idas. Britney não pode deixar que havia algo de errado com Betty, mas estava preocupada com o que haveria de ser do corpo de Amarildo, e se Ranmaru e Jonathan estariam bem.

Escolheram randomicamente o setor temático sobre o Oriente Médio. Britney sempre parecia se perder em devaneios quando visitava museus ou igrejas. No caso do Louvre, parecia uma autista na única vez que veio. Dessa vez, porém, se controlou um pouco, e também devido ao silêncio, pode se manter mais centrada. E teve sorte em se manter assim, pois Ronald parecia a fim de conversar:

- Você realmente ficou brava quando eu sumi, não foi? – Ronald já começa jogando alto e puxando um assunto que literalmente poderia ser arriscado – Eu lembro de alguns de seus emails…

- Ah… – Britney responde, absorta na visão de uma estátua babilônica, de um homem em uma carroça voadora. Ela imaginava que tipo de Ser inspiraria aquela visão ou que tipo de ser SERIA aquela visão – eu fiquei foi triste. Sabe, é difícil saber que alguem que você gosta demais de repente começa a sumir. E cabeça de menina adolescente você sabe como é, zilhões de coisas passando pela cabeça…ai acabamos exagerando um pouco.

- Não sem razão. Uma das coisas que me culpo até hoje é o fato de eu saber, ou pelo menos imaginar como você tava e não ter feito nada. Eu sei que pode parecer uma desculpa idiota ou sem sentido, mas não tinha como.

Britney subitamente é trazida de volta de suas visões sobre a tal estátua quando Ronald coloca suas mãos nos ombros dela. Um pequeno calafrio percorre sua espinha, pois sente que ele realmente está tentando se aproximar mais do que ela imaginava com o andar da conversa. O tom sério dele reforça o que ela sentia:

- Eu queria que você me desculpasse por isso, se pudesse.. – e os braços dele vão lentamente se unindo em volta dela, como um abraço em volta do pescoço.

Pega de surpresa, Britney teve de pensar rápido. Ela não queria ter essa conversa agora, ainda tinha muito o que se esclarecer e entender também antes que ela falasse a ele ou mesmo soubesse o que queria. E dentro dela, uma parte à muito tempo adormecida, uma espécie de desejo, começou a incomodar também. E antes que tudo isso progredisse para algo maior, ela segura nas mãos dele, ao mesmo tempo soltando-se e virando para ele e diz:

- Naldo, quer relaxar? – o tom é caloroso, mas com um quê de firmeza – por um acaso eu teria vindo ou mesmo te atendido se eu não tivesse perdoado? Eu fiquei triste, sim, mas você teve seus motivos. E conhecendo você, sabendo de tudo o que sentia, eu acredito que eles foram importantes o suficiente para você ter feito aquilo. E fim de papo, não vamos morgar uma visita num lugar fantástico como esse com tristezas do passado. Isso é coisa pra se fazer ao ar livre!

Britney então solta as mãos dele, dando um leve puxão como quem falasse “siga-me” antes de soltar de vez e começar a andar:

- Vamos que eu quero ver todo o lugar antes de voltar para o Brasil!

O sorriso dele mostra que a ação deu certo, e isso é confirmado quando o assunto volta a ser alegre, sobre banalidades e lembranças do passado. Britney respira aliviada, e internamente pensa no porquê do estranho desejo que surgiu quando ele a abraçou e falou do passado. Este já passou, mas existiu e a incomodou por alguns instantes. Ronald pondera se fez o certo, ainda está receoso quanto a como que essa viagem pode acabar. Mas se sentia feliz, e extremamente aliviado, já que um de seus medos acabara de ser mandado para longe: ela o havia perdoado e não guardava mágoas disso.

Britney quis ser precavida, então, quando se aproximou as 20 horas, horário de encerramento do museu, ela ligou para Betty e marcou o jantar dos três no tradicional Le Coupe Chou, onde comeram, beberam vinho e conversaram (grande parte da conversa fez Britney lembrar da cena da estante de escritório) até quase 11 da noite, quando o sono realmente começou a apertar. Retornaram então para o Napoleon, onde cada um foi para seu dormitório, não sem antes de Britney lembrar a srta. Peanney sobre as compras de amanhã.

A Viagem - Dias 1 e 2

Mago Sophuz