A Viagem - Parte 2

Dia 3

Já se passava das 11 horas, e era a terceira vez que Britney e Betty voltavam ao hotel para deixar sacolas. A ideia de compras seria mais simples, e a historia de usar o cartão de Ronald era apenas piada, mas este acabou fazendo questão disso pela manhã. Britney iria dizer algo sobre “não precisar”, mas um olhar da srta. Peanney e a lembrança de como ela se ferrou com o último “tem certeza?” a fez pensar melhor e ficar calada.

A verdade é que se divertiram feito crianças. Britney comprara todos os presentes que tinha em mente para seus amigos da Capela e renovou pelo menos metade de seu guarda-roupa. A srta. Peanney também comprou pelo menos uns dois novos closets de sapatos, roupas, perfumes e afins.

- Ainda não fomos na Le66 Britney. O Ronald vai voltar lá pelas duas e ainda não fomos em todos os lugares que eu quero ver! – Betty havia abandonado toda a formalidade na segunda hora de compras – Quero aproveitar toda a hora fora de trabalho que tenho aqui!

- Calma Betty! Vai dar tempo. Não encana com o tempo, se preocupa só em se divertir. Poxa, quanto tempo faz que você não tinha uma folga assim hein?

- Nem lembro… normalmente finais de sábado e os domingos é quando eu não trabalho. Mas eu normalmente uso esse parco tempo para descansar. Eu preciso sabe, esfriar a cabeça, tanto trabalho, tanta coisa…

- Ah, não diga, nem percebi… – Britney respondeu irônica – deve ser complicado mesmo. Mas como você começou com essa rotina matadora, afinal?

Betty olha com uma certa hesitação. Ela está confusa sobre o que realmente rola entre Britney e Ronald e tem medo de dizer algo errado. Britney meio que fisga essa preocupação nela, e emenda o clássico:

- Não tem problema se não quiser falar sobre isso… – E no fundo ela sabia o quão “malvada” estava sendo, porque geralmente isso é um desarme na pessoa que pondera sobre falar ou não.

- Ah, não, é que foi estranho, e é estranho de lembrar. Bom, eu estava estudando em Cambridge também, na época. Algumas pessoas tinham um certo preconceito com o povo de fora, ainda mais com os brasileiros. Eramos quatro no total, eu, o Ronald, a Susan, que nem sei mais dela hoje, e um gordão estranho chamado Afonso. Ronald na época era muito na dele, mal falava com os outros. NA verdade, ele aparentava um certo ar de tristeza no começo, mas depois de alguns meses, isso pulou para uma seriedade absurda. E seu brilhantismo também, ele faltava a diversas das aulas, mas ainda assim era um dos melhores alunos. E também extremamente anti-social, parecia não ter amigos, apenas andava com um pessoal do laboratório de finanças.

- Os dois primeiros anos eram praticamente regados a festas, para desestressar do rítimo non-stop da faculdade. Já estavamos perto das provas finais, bem no final de ano mesmo. Teve uma dessas festas, marcadas num sítio perto do rio Cam. E como é padrão em festas assim, no meio da noite já tinha gente caindo de bêbada. Eu estava no meio termo. Bom, não, na verdade eu estava bem acabada. E estava sentada perto de um laguinho, esperando aquela sensação chata do mal estar da bebida diminuir, quando alguns caras se aproximaram e começaram a falar alto lá perto. Um deles veio até mim e falou algo que não entendi direito, chamando os amigos em seguida. Eu ia me levantar pra sair, mas me senti estranha, tanto que tropecei depois de poucos passos. Eu estava realmente zonza!

- Um deles se aproximaram e me colocaram sentada, um deles tirando meu casaco. Eu estava com a cabeça girando, não conseguia esboçar reação. Eles fediam a bebida, pareciam típicos capiaus do interior da Inglaterra. Eu… queria falar, reagir, mas algo estranho me impedia. Acho que tinha algo na bebida, sei lá, mas eu não conseguia pensar direito. Estava bem assustada, a intenção deles estava escrita na testa de cada um. Um deles me pega no colo e vai me carregando sei lá pra onde. E foi nessa hora que vi chegando o Ronald com um outro cara que estava vestido impecavelmente, vindo na nossa direção. Ronald disse algo para o líder dos caipiras que o fez bufar de raiva. Eles então me colocaram no chão e sairam dali, e quase que como mágica, a estranha sensação passou.

- Hum… – diz Britney curiosa – e ai?

- Bom, ele me ajudou a levantar e disse para ficar tranquila que tava tudo bem. Disse que ele e o amigo estavam voltando e me ofereceu uma carona. Eu aceitei, tava bem confusa com tudo o que aconteceu, mas ele me deu, sei lá, uma certa tranquilidade. Ai me levou até o meu apartamento e eu passei o domingo inteiro de ressaca.

- Na segunda, voltamos para a mesma rotina da faculdade, com a diferença de que aquela aura sombria e estranha dele não existia mais para mim. Era como se fosse um véu que sumisse. Ele conversou comigo mais algumas vezes e convidou para que eu entrasse no laboratório de finanças. Eu recusei a principio, pois pretendia voltar para o Brasil nas férias. E o fiz, mas quando voltei para o reinício das aulas, essa sensação de distancia e essa aura estranha pareciam ter voltado. Não sei explicar sabe…

- Imagino…

- Não era frieza, pois até que conversavamos bastante. Era, sei lá, algo diferente, eu imaginava que tinha algo relacionado com o tal laboratório. Meio paranóia, mas eu estava um tanto certa. Acabei entrando e vendo que era um povo todo estranho e cheio de manias. Ronald não era daquele jeito, mas aquilo afetava um pouco seu comportamento.

- No final da faculdade, ele saiu do laboratório e começou a estagiar num Holding financeiro enorme. Mal conversavamos e eu…. bom, sentia falta dele, porque além de super inteligente ele também era…. – Britney claramente percebe que Betty estava escolhendo bem as palavras – ... o mais legal dos brasileiros, e no fundo, eu sentia que precisava agradecer a ele pelo dia que em salvou daqueles matutos.

A srta. Peanney parecia realmente medir bem as palavras. Parecia não querer avançar além de certo ponto. Britney percebia isso claramente, mas também estava receosa em exigir muito dela. Ao que parecia, seu pressentimento de que essa viagem pegaria assuntos extremamente delicados estava correto. Não imaginava ela que a ponto de incluir uma terceira pessoa, mas ainda assim correto. Ela começa a pensar em como ficou acostumada a ter a Magica e a Canção ao seu lado, tornando as coisas bem mais fáceis, e foi percebendo quão complexo é lidar com a humanidade apenas como, humana.

No que ia deixando com que ela continuasse com as palavras cuidadosamente selecionadas, lembrou de uma sessão que teve onde o próprio Dom Lucas transmitia alguns ensinamentos, e lembrou da passagem onde ele disse “ Não importa a dor que isso venha a causar, nada doi mais que a informação sem conhecimento. É como a mentira continua, é como a falsidade nasce, é como o erro persiste. É através da busca incessável da verdade em sua forma mais pura que nos purificamos também. Com o cuidado de não nos tornarmos obsessivos, pois isso também é outra mentira ”.

- Você estava gostando dele, não é? E alias, ainda sente algo… não? – Britney pergunta, já ligando o foda-se para a sutileza – Tudo bem de falar Betty, vai chegar a minha vez de falar algumas coisas também, e sei que isso é relativo demais para ser dito pela própria pessoa que fala, mas, você pode confiar em mim.

A srta. Peanney parece travada no mesmo lugar, segurando os óculos Diesel da prateleira da Le66. Um asteróide caindo em cima dela teria sido mais suave. Por alguns instantes, ela parece perdida, a boca se mexe para inciar alguma frase, mas nada sai. Britney percebe que a aposta, embora correta, foi alta demais. Pegando-a pela mão, culpando-se um pouco pelo que acabara de falar, ela leva Betty até as mesinhas das lanchonetes e pede uma água.

Ela toma alguns goles, respira fundo e se recompõe. Olha para Britney com um misto de vergonha e receio, mas ela está com um sorriso reconfortante e amigo, olhando para Betty:

- Tá melhor? Desculpa ter falado assim na lata….

Ela sorri sem jeito e responde:

- Tudo bem… vai ser bom que eu desabafe mesmo… eu só não imaginaria que seria com você… mas quem entende essas coisas não é?

- Muitos ficam loucos tentando… – completa Britney – então nem adianta forçar muito pra isso não.

- Bom, me dei conta que sentia algo por ele quando voltei do Brasil. Eu estava preocupada com o envolvimento dele no grupo de finanças da faculdade. Eu percebia a mudança no comportamento dele dentro e fora daquele laboratório. E sei lá porque, ele demonstrava uma certa preocupação em como eu estava desde aquele dia que me ajudou. Sempre se interessava em saber se eu estava bem e tudo o mais. E o mais engraçado de tudo isso foi o motivo que ele deu sobre o porquê de ter me ajudado: disse que na hora sentiu ser o certo a fazer. Eu disse que era praticamente uma desconhecida, mas ele argumentou que não poderia deixar…

- Alguem precisando de ajuda naquele momento e não fazer nada, certo? – Britney completa a frase antes dela, e ri internamente, lembrando de uma cena muitíssimo parecida de anos atrás. Ria também da cara de espanto da srta Peanney em ter as palavras tirada de sua boca, e imaginava se foi assim que ela ficou no dia anterior no quarto, quando a situação foi inversa.

- Sim…. praticamente isso, como você sabe e…?

- Eu explico depois, continua a história.

- Bom, e num dia após minha volta, eu estava conversando com alguns amigos e ele me chamou. Disse que percebeu que realmente o tal laboratório de finanças em nada ia dar e que ele iria trabalhar em um grande conglomerado financeiro. Disse que a minha dica tinha sido vital, e me convidou para ir junto com ele, pois ia precisar de um ajudante, e que confiava em mim para tanto. Disse que poderia precisar que eu desse esses toques para ele quando ele não prestasse atenção em detalhes sutis assim. Depois me deu um abraço e disse que esperava a resposta, positiva de preferencia, até o dia seguinte. E…. – Betty agora faz um pequeno esforço para segurar as lágrimas -... esse abraço foi uma coisa diferente. Sabe, não me entenda como uma romântica boba, eu senti algo diferente, algo sincero, que talvez nem fosse pra mim, mas senti. Não se como chamar, mas foi nesse abraço que percebi que eu estava gostando ele.

Britney ligava diversos pontos enquanto ouvia a história dela, que em grande parte lembrava a sua. Imaginava o que Pai Galo queria dizer com Ronald não podendo ficar no Brasil e o que diabos havia de tão errado nesse grupo da faculdade que Betty tanto dizia ser ruim.

- Só que eu acabei cometendo um dos piores erros, eu não deixei claro o que sentia. E por mais ligados que fossemos, isso não passava de uma relação profissional. Eu…. eu fui ficando dependente disso. Eu me sentia bem trabalhando com ele, mesmo que não tivessemos nada. E com o tempo fui aprendendo a me contentar com isso. Sei lá… eu sinto como se essa fosse a forma de retribuir o que ele fez por mim aquele dia. Nossa, isso tudo deve parecer estúpido não?

- De jeito nenhum. Sabe, eu aprendi que as vezes a gente se apega a algumas coisas tão… tão sem sentido, ou que pelo menos parecem ser. É coisa que é natural do ser humano já. Buscar a felicidade. Mas as vezes, nos apegamos tanto nessa felicidade que nem percebemos que ela deixou de ser felicidade faz um bom tempo. É o exemplo do namoro empurrado com a barriga. Do emprego que você não vai atrás porque tem o seu garantido já…. e tudo isso por um medo. Um medo enorme do “ como seria sem isso que eu já tenho”. Um medo de abrir mão daquilo que já é garantido. Porque afinal, eu já tenho. Tenho meu namorado, tenho meus finais de semana regados a motel barato e cinema. Que odeio, não aguento mais esse papai-e-mamãe e esse cinema fedorento. Mas tenho. Tenho meu salário no final do mês, mas odeio essa merda de emprego! E…. – Britney olha para Peanney para ver se não estava começando a viajar demais no assunto, mas ela parecia ainda estar acompanhando – ficar perto de quem você gosta para cuidar dele, com essa pessoa não sabendo disso. Existe uma segurança. Mas existe uma dor também, Betty, e você com certeza sofre com isso.

- Eu… eu queria que tivesse sido diferente… – e ela pega um lenço para enxugar suas lágrimas.

- Tenho certeza que sim! Sabe, as vezes uma pequena atitude, um “eu te amo”, ou simplesmente uma demonstração de afeto pode mudar vidas. No plural mesmo. Um antigo amigo me disse uma vez que sentir algo verdadeiro por uma pessoa e não deixar que esta saiba pode ser um crime. Você pode estar tirando anos de felicidade da mesma. A mesma coisa que insistir em uma relação simplesmente pelo apego. Nesses casos, pelo olhar mais duro e imparcial, é uma grande maldade, com você e com o outro.

Britney começou a perceber que estava se aprofundando demais no assunto tanto pelo leve cheiro de lavanda que começou a tomar conta do ambiente quanto com a cara de Betty, que parecia ter levado uma grande bofetada. Resolveu então, dar uma elevada no astral.

- Porém, o que importa é que você tem noção disso. É pior quando não damos nem conta. – E levantando, estende a mão para ela – Vamos, temos só mais uma hora de passeio antes do Lobo Mau chegar. Vamos que faltam duas lojas que não vimos ainda. No caminho, vou te contar de como eu conheci Ronald e umas histórias engraçadas.

- É… estranho. Eu deveria odiar você, te considerar uma rival, sei lá, mas não consigo…

- O mundo é estranho mesmo. E eu não sou rival de ninguem não. Na verdade, eu nem sei direito o que o Ronald quis com essa viagem toda. Provavelmente o mesmo que eu, esclarecer alguns assuntos que ainda martelam.

- Ele ainda gosta muito de você, acho que você não faz ideia…

- Faço sim. Eu também gosto muito dele….ainda o amo na verdade. Mas é algo diferente. Não é como antes, não é como um namorado, é algo diferente. Eu o sinto como uma pessoa especial no meu coração. Como um irmão, entende? AH, e por favor, não fale disso com ele, eu pretendo conversar sobre isso…. mas provavlmente um pouco mais pra frente. Eu tenho certeza que ele tem as incertezas e dúvidas dele também.

A srta. Peanney ri:

- Haha, relaxe quanto a isso Britney, você viu como nossas conversas são.

As duas riem, e com o clima um pouco menos pesado, continuam com a fúria consumista feminina nas lojas que ainda não visitaram. Ainda arranjaram tempo para que um artista de rua pintasse o retrato delas enquanto esperavam por Ronald para almoçar.

A parte da tarde foi relativamente tranquila, tanto Britney quanto os dois passaram a maior parte do tempo trabalhando. Ela tentou ligar para o Brasil, mas não conseguiu. Apenas falou com Uáshinton pelo ICQ e ficou mais tranquila depois disso.

Os três se encontraram no café do dia anterior no final da tarde. E no meio de uma conversa sem rumo algum, Ronald resolve provar que o dia não era mesmo de sutilidades:

- E os namorados Magrela? Eu vi no jornal que você tava de affair com um tal médico japonês… – ele pergunta, olhando para ela com um olhar inquiridor em seguida.

Britney sente aquela sensação estranha no estômago, aquela que se sente quando está gostando de alguem. Por uma fração de segundo, dá aquela coradinha, mas já responde com uma sincera gargalhada; já esperava uma pergunta assim e estava preparada para ela, fosse a ocasião que fosse:

- Ah, Ranmaru. Ele é uma das pessoas mais legais que conheci sim.

- É mesmo? – O semblante de Ronald muda de uma maneira que só as duas, que o conheciam muito bem, poderiam perceber – e….

- Você deve ter lido sobre o José Matarazzo também, meu outro namorado. Ou sobre o Dimas, afinal, como eu poderia ter tanto acesso ao universo policial?? – Britney já ri um pouco mais alto, vendo que ele caiu como um pato no que ela falou. – Poxa senhor Ronald, não ensinam os bilionários que os jornais muitas vezes falam merda?

A risada é geral entre os três, e ela continua:

- Mas resumindo, os namorados andam longe. Você foi meu último, acredita?

Ronald fica sério por alguns instantes e em seguida dá aquele riso bobo de pessoas que se sentem orgulhosas pela própria masculinidade, e responde, tentando disfarçar:

- Vai dizer que nunca se interessou por ninguem?

Britney ia responder de prontidão, mas parou por um segundo como se estivesse resgatando algumas lembranças:

- Não… isso aconteceu sim na verdade… uma pena que eu precisaria meio que colocar um outdoor na janela dessa pessoa para ela perceber. Mas e quanto a você, Ronald, nesse tempo todo…. – A ideia de Britney era fazer com que ele reparasse um pouco em Betty, mas ele acabou se antecipando:

- Ah, você sabe, um casinho ou outro, mas nada sério. Eu já tenho a senhorita Peanny, pra que preciso de outra? Não é senhorita Peanney??

Aqueles segundos de silêncio constrangedor contaminaram o ambiente. Betty travou, a conversa da manhã ainda estava fresca demais, e seus sentimentos, bem expostos. Britney estava levando a mão ao rosto na típica atitude /facepalm, e Ronald dava um sorriso bobo sem nada entender. A intenção dele era causar um ciúme bobo em Britney. Para a surpresa dela, porém, a própria srta. Peanney salvou todos daquele momento constrangedor, dizendo, logo depois do susto inicial:

- Claro, e o melhor, em vez de lavar cuecas eu salvo compromissos. – a piada foi extremamente sem graça, mas tanto ela quanto Britney riram, de nervosas e de alívio.

Ronald avisou que iriam em uma apresentação na Ópera de Paris essa noite, então para não programarem nada. Britney lembrou que precisavam do horário livre para poder conversar, e resolveram deixar isso programado para amanhã a tarde.

No que estavam se arrumando para sair, Ronald pergunta:

- Você vai com esse negócio e esse colar de novo Magrela? Não cansa deles não?

- Ah, eu vou com isso pra qualquer lugar – ela diz balançando o braço do rosário enquanto retocava a maquiagem – e esse colar… ele… ele é importante pra mim.

- Poxa, sério, fica meio, estranho, sei lá, sei que você tem suas manias, mas relaxa dessa vez – e num movimento rápido, ele começa a desatarrachar o colar do pescoço de Britney.

- Ronald, é sério – e pela primeira vez na viagem tanto o tom quanto o rosto de Britney estavam realmente sérios – eu não vou tirar o colar, e nem o rosário. Não quero que entenda, só respeita isso, por favor.

- Ok, ok, não está mais aqui quem falou – diz, sentando num sofá.

A ópera atrasou um pouco, mas foi fantástica. Britney no entanto estava concentrada, pois prestava atenção em Betty, que ainda estava um tanto abalada pelo desabafo de de manhã e em Ronald, para que esse não confundisse as coisas e se aproximasse mais do que deveria.

Após a apresentação, houve um coquetel para os convidados. Os três dançaram, beberam e se divertiram bastante. Na volta, porém, um erro fatal de Britney e mais uma situação constrangedora; no calor do momento, enquanto saiam do elevador, ela falou:

- Adorei essa noite, sentia falta do nosso tempo juntos – E ela queria dizer apenas que se divertiu como se divertiam antes. Porém, Ronald já um pouco alto pelo álcool entendeu isso como algo mais íntimo, como uma espécie de senha para algo que procurava.

E subitamente, ele a pega nos braços, carregando-a. Betty, que já estava entrando em seu dormitório, olha para trás e vê a cena, sentindo um aperto no coração. Britney fica zonza pelo movimento repentino misturado ao álcool, mesmo com o pouco que bebeu.

- Pois não terá que sentir mais Magrela. Nunca mais… – e começa a aproximar o rosto para beija-la.

Britney escuta a porta do quarto de Betty se fechar ao mesmo tempo em que ela encosta a cabeça no ombro de Ronald, tirando o ângulo dele.

- Naldo…

- Eu tou aqui, não precisa mais se sentir assim, agora tudo…

- Me põe no chão, Naldo, por favor – o tom era baixo, a voz vinda do fundo da garganta.

- Mas…

- Por favor! – E ela volta a olhar para ele. Ronald vê os olhos de Britney de uma maneira que nunca havia visto antes: ela parecia assustada.

Ronald sente-se confuso, algumas lembranças do passado percorrem sua mente, e um furacão parece querer lhe trazer para uma antiga cena da adolescência onde ele fora rejeitado, também estando bêbado. Mas subitamente tudo isso desaparece, ele sente Britney segurando seu rosto e lhe dando um beijo na testa:

- Vai deitar Naldo, você precisa descansar – ele repara que o olhar dela voltou a ser o sereno de sempre. E da porta do quarto, ela vira com um sorriso – Boa noite.

Dia 4

Britney acordara no meio da madrugada. Madrugada esta que estava quente, mesmo com a janela aberta, ela acordou colada na cama devido ao suor. Resolveu então levantar, jogar uma água no rosto e vestir um pijama mais leve. Pondera sobre ligar ou não o ar condicionado, mas o calor não chegou a esse nível de insuportabilidade ainda.

Voltando a deitar na enorme cama, o sono teima em vir. Ela pensa então em fazer alguns asanas (posições de yoga) para relaxar e que o sono chegasse. No que está se alongando, ainda na cama, ele sente uma estranha sensação, um estalo seco em cada uma de suas vértebras, de baixo para cima e em seguida no sentido inverso. A sensação era como o som de uma garrafa de cerveja sendo aberta (com o abridor), aquele “tump” seco, seguido de uma expansão de volume. A sensação era nova para ela, que resolveu sentar na posição do herói e esperar que a sensação parasse. Lembrou-se do que havia estudado sobre expansão de energia Kundalini e não conseguia encontrar fenômeno parecido. O despertar da mesma normalmente acontecia em um sentido só, o de ascensão, e era algo que exigia MUITO treino e dedicação. Então essa ideia estava descartada. Britney resolveu apenas parar de pensar e deixar o que quer que estivesse acontecendo, acontecer.

Porém o silêncio e a paz duram pouco. Britney subitamente sente como se todo o corpo estivesse tomando um choque, como se uma corrente elétrica estivesse passando por ela. Não era algo doloroso, mas incômodo. E esse “choque” vai despertando algumas sensações estranhas na região da testa, peito e da bexiga dela. Quando presta atenção nesses pontos, Britney percebe que eles vão lhe trazendo algumas sensações do passado. Como que por instinto, ela deita, então, na cama.

E é ai então que tudo fica bagunçado de vez em volta dela. Sua casa de infância se forma ao seu redor, embora ela ainda se veja deitada na cama king size do Napoleon. Seu pai, seu irmão, sua mãe a olham com uma cara maliciosa. A cena muda, para uma noite na casa de Ronald, ambos transando na cama dele e ela com a mesma cara que a família fez. Subitamente ela vê todas as casas em volta da dele, e quase que a cidade inteira, todos em uma cama. Sim, a cena muda, as paredes somem, tudo é uma cama, um quarto gigante. E lá todos estão transando, em todos os cantos. Falando alto seus desejos, gritando, de dor ou prazer ou mesmo ambos. O cheiro de suor e sexo contamina o ar. Britney está paralizada olhando tudo aquilo, não se atreve nem a pensar no que vê. Todo tipo de perversão e putaria acontecendo a sua volta, e isso parecia sufocar sua garganta. E, subitamente, todo esse povo começa a reparar nela. Olham para ela com a mesma cara maliciosa que ela vira antes. Dentre essas pessoas, ela vê seus amigos, sua família, vê inclusive ela mesma. Vê Ronald também, mas ele não está olhando para ela. Assim como não estão alguns de seus novos amigos da Capela. E todos estes que estão olhando para Britney começam a gritar para ela numa horrível cacofonia.

A cena toda passa. Britney mais uma vez se encontra na cama do Napoleon, com as paredes e tudo o mais do Hotel. Encharcada de suor, respiração ofegante, ela resolve ir até o banheiro para lavar o rosto mais uma vez, mas acaba caindo. Suas pernas estão bambas. Ela sente um calor pelo corpo como se estivesse a beira de um orgasmo. Ainda no chão, tenta respirar e se recompor, mas não consegue. O mesmo desejo que a incomodou no Louvre agora estava em todo o seu corpo, em proporções imensas. Imagens passavam pela sua cabeça,e uma vontade quase que impossível de suprimir de ir até um dos quartos ao lado e dar um jeito nesse desejo que se apossou dela. Com Betty se fosse o caso, o que ela mais queria no momento era apagar esse fogo.

Tentou, ainda no chão mesmo, cantar alguns mantras para se recompor, mas não achava forças. Parecia que ia desmaiar, e ela começou a rir de si mesma ao ver que parecia “uma gata no cio”, que Britney fazia piadas pelo fato do animal estar “morrendo por que queria dar”.

E o semblante no olhar dela muda, ela não teria que ficar ali sofrendo. Por um momento, foda-se tudo o que conquistou, para o diabo com a harmonização e controle das vontades para “Deus agir por ela”. Deus não estava lá passando por esse apuro e ela sim. Estava decidida, iria até o quarto de Ronald, e tentou não pensar muito no depois. Apoiando-se na cama, levantou e caminhou decidida até a porta. Até sorriu pelo fato do Silêncio, pois não teria seu Avatar lhe enchendo por isso. A malícia tomava conta do seu olhar, e ela estende a mão para destrancar a porta e abri-la. Logo esse mal estar passaria.

No que está para abrir, porém, ela repara na cicatriz de sua mão. Lembranças de alguns cânticos enquanto ela estava dopada na capela Nefandi. Quase que imediatamente seus olhosvão para o Rosário, sempre enrolado em seu braço esquerdo. E memórias de Lucas, Priscila, Ranmaru e todos os outros do Brasil a invadem. Ela olha para o colar pendurado ao lado da cama, e solta a maçaneta. A sensação de desejo parece que prontamente reage contra isso, incomodando-a mais uma vez. Porém, Britney estava decidida, não iria ceder. Caminha até o banheiro, cantando alguns versos Védicos, e senta de pijama e tudo na banheira, na mesma posição de herói (que lembrou agora que curiosamente e caindo como uma luva para a situação também é chamada de posição da castidade) e ligou a torneira fria do chuveiro.

O Banho serviu para recompor Britney. O que quer que tenha acontecido, agora passou, e ela apenas sentia-se exausta. Saiu do quarto para pegar algo para comer, e viu que Betty estava no sofá, dormindo com o robe quase que caindo do corpo. Britney a acorda e a acompanha até o quarto. Betty pouco fala, está um tanto zonza de sono ainda. E depois de comer alguns biscoitos, ela volta para o quarto, para descansar, pois estava, realmente, exausta.

E no andar logo abaixo, Ammie e Gillie riem da cara de bobos de Paul e Giselle. Esses dois últimos, um casal de Cultistas do Êxtase haviam conhecido as duas irmãs faz algum tempo, e uma amizade crescia. Descobriram posteriormente que se tratava de um tipo especial de criaturas, Changelings, pessoas com almas do mundo das fadas. O interesse na amizade cresceu, mais ainda quando as duas os convidaram para um tal de “Ritual do Prazer Absoluto”. O qual ainda estaria ainda em pleno andamento caso os dois jovens magos não estivessem, literamente, exaustos .

Britney acorda revigorada, mal parecia que passou pelo apuro da outra noite. Acorda, porém, mais tarde do que o de costume. Na verdade, já era quase hora do almoço. O vento quente do verão europeu soprava no quarto, e se enrolando no robe, ela vai ver se tanto Betty ou Ronald ainda estavam por lá.

E como já suspeitava, não estavam, a rotina dos dois era algo um tanto maluca para Britney. E enquanto comia algo, pensava na conversa que teria com Ronald no meio da tarde. Não eram dúvidas sobre o que sentia ou sobre como dizer, mas sim ponderações de como tudo foi chegar até onde chegou. E a conclusão dela foi que não adianta muito pensar sobre isso mesmo. E de qualquer forma, ainda teriam algumas horas a qual seria melhor se distrair. E a Catedral de Notredame pareceia ser uma visita convidativa demais.

A Viagem - Parte 2

Mago Sophuz