britney_ronald

Britney e Ronald

Ronald

Ronald cresceu numa família que poderiamos chamar de “neo-tradicionalista”. Daquelas apegadas a valores morais como religião, status, cultura e afins, mas sem saber exatamente o porquê de cada um deles, e um pouco destoante do que seria o “tradicionalista padrão”. Seu avô, Charles de Paula Andrade, fez fortuna como advogado e sócio de uma empresa em ascensão no estado de São Paulo, e posteriormente abriu seu próprio escritório, que obteve uma considerável fama.

Seu pai, Manfred, seguiu os passos de Charles, também se formando em direito e trabalhando/herdando o escritório do pai. Foi o responsável por uma nova ascensão do mesmo, especialmente na área do direito tributário. Charles podia ser definido como um perfeito workaholic, chegando a construir um quarto para que pudesse dormir no serviço, as vezes por 3 dias seguidos.

Ronald cresceu tendo tudo o que queria. Mas desde pequeno já sentia a pressão para seguir o caminho do pai e do avô. Grande parte da educação em casa tinha frases como “ser sempre o melhor”, “não deixar ninguém te passar para trás” e “supere seus rivais”. O pai ficava pouco em casa, as principais lembranças do garoto era quando a família ia para o clube de campo do Jóquei Clube, no interior de São Paulo, normalmente para um churrasco, ou quando o pai ficava bebendo uísque na biblioteca da casa. Nessas ocasiões, ele já presenciou verdadeiros ataques de fúria do pai, berrando palavrões contra inimigos de trabalho, e quebrando coisa ou outra.

Cristina, sua mãe, morreu um dia depois do seu aniversário de 11 anos . Era uma ex-chef de cozinha e dividia o tempo entre ficar em casa e administrar um restaurante, e a pessoa que mais acompanhou o garoto em sua infância. Muito embora fosse adepta da filosofia de Manfred de “peseguir sempre o melhor”, ela era bem menos rígida quanto a isso, Na verdade, os únicos valores como amizade, lealdade e até mesmo a capacidade de perdoar algo foram ensinados por Cristina.

Com a morte dela, o garoto acabou se aproximando de sua tia Valéria, uma “ex-alcoolatra constante” que, embora de uma maneira completamente diferente, cuidava do garoto, sendo de certa forma, bem distante, uma mãe substituta. Nessa fase de sua vida também começou a se aproximar mais de amigos da escola e a se enfiar em um número cada vez maior de atividades. Não gostava de ficar em casa agora que a mãe não estava mais lá. Durante vários anos sua rotina resumia-se a escola, cursos variados, atividades esportivas e casa de amigos. Literalmente apenas ficava em casa para dormir.

Britney


Britney Ranseur é a filha mais nova de Yves Ranseur, um ex-diplomata francês que se tornou consultor de comércio internacional, e Mara de Souza Leão Ranseur, pedagoga e psicóloga. Ela se encaixa no tal “0.1%” de falha dos anticoncepcionais, que pegou os pais de surpresa, pois coincidiu com quando se mudaram de Brasília para São Paulo.

Curiosa desde pequena, bombardeava a mãe (e o pai, quando ele estava presente) com perguntas sobre tudo. Quase sempre aprendia sozinha as funções mais específicas de aparelhos por ficar fuçando neles. As vezes os quebrava também, mas, fazia parte do método “tentativa e erro”.

Era bem mais reservada que o irmão, Pierre. Por vezes gostava de ficar sozinha no quintal de casa, “lagarteando” no sol, simplesmente vendo o dia passar. Porém tinha uma capacidade quase que magnética de fazer amigos. Foi assim em todo o primário, onde se divertida inventando brincadeiras, por vezes até na sala de aula e sendo repreendida por isso. Mas como a garota tinha uma curiosidade nata em saber coisas novas, o problema era mesmo disciplinar, porque em relação a aprendizado, ela era uma das melhores da classe.

Em casa fez bastante amizade com Elisa, uma passadeira já idosa, que contava histórias sobre quando era jovem. Britney adorava imaginar como tudo era diferente no passado e como que em menos de 100 anos tanta coisa mudou. Foi Elisa que lhe deu a sua primeira muda de Lavanda, o que foi uma paixão a primeira vista. A garota cessava sua curiosidade sem fim e a agitação da mesma apenas para ficar apreciando o odor da plantinha. Foi através de Elisa também que a família Ranseur conheceu Pai Galo, um Pai de Santo umbandista que fez bastante amizade com Mara, que era bastante religiosa. E foi através dele que a curiosidade de Britney encontrou outro ponto de interesse que o perseguiu por toda a vida: as religiões, tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. E aos 13 anos já sabia de muito mais coisa que a maioria dos amigos e família sobre o assunto.

Ela começou o colegial precocemente, nesses mesmos 13 anos de idade. Era reservada, mas mesmo assim amiga de todos em sua classe (e até em outras). Tida como nerd por uns, como drogada por outros e como biscate por algumas, Britney encontrava lugar em todas as rodas que quisesse ir. Mas ainda assim, ficava na sua a maior parte do tempo. Adorava as aulas de humanas, gostava de algumas de exatas e quase sempre dormia nas de portugês. Costumava ser desligada demais (o principal motivo por acharem que ela usava drogas – a mãe até foi “alertada” pela diretoria uma vez).

Pouco antes dessa época, em casa, numa daquelas tardes frias e sem nada para se fazer, sem vontade alguma de ir a casa de alguma amiga, Britney encontra um livro de receitas nas coisas de sua mãe. Era da avó. Olhou a dispensa, contou o que tinha. Arriscou uma receita… depois outra. E daí nasceu outo hobby dela, a cozinha.

(Pai Galo)

O Colegial

Ronald foi matriculado no Pueri Domus mais porque o pai perdeu a data da matrícula no Dante Alighieri do que porque quisesse. Não fazia muita diferença para o garoto. Contanto que fosse em um dos melhores colégios, para ele estava bom. Para o pai, era mais uma questão do nome e da tradição, que não conhecia muito também. Britney, por outro lado, sabia do lado “experimental” na educação do Pueri Domus, e praticamente exigiu que os pais matriculassem ela E o irmão lá.

O ambiente era o típico de famílias de classe média alta. Panelinhas em cada canto, grupos disputando a atenção de outros, ostentação, turma do fundão, nerds, enfim, o colegial normal de qualquer escola.

O currículo era extenso, diversas aulas diferentes, como sociologia e pensamento moderno, fora atividades esportivas variadas. Praticamente passaria-se o dia todo na escola caso o aluno assim quisesse. E isso caiu de certa forma como uma luva para Ronald, tão acostumado a ficar longe de casa, opção antiga que já se tornou inconsciente. Acabou em pouco tempo se dando bem no time de basquete e nas aulas de matemática avançada das tardes. Frequentava também outras atividades esportivas.

Britney também foi outra que uniu o útil ao agradável: A curiosidade quase doentia de conhecer coisas novas e a diversidade de atividades extras oferecidas. Obviamente passou a frequentar as aulas de culinária, mas também se matriculou nos laboratórios de redação, nas aulas de matemática avançada e na de sociologia.

Ronald possuía no sangue o instinto de competição. Ele se orgulhava de estar quase no nível dos “nerds” da classe sem ser um deles. Gostava mas também grande parte do tempo odiava o pessoal mais bagunceiro. Na realidade, gostava do clima de competição do “quem tem mais, quem pode mais” entre eles, e de aprontar com alguns idiotas. Mas odiava ver a falta de potencial dos mesmos, não passando de idiotas que não pensavam no futuro ou não faziam a menor noção de que a escola era necessária.

Encontrou um amigo que tinha praticamente os mesmos interesses, Pierre. Também teve uma educação focada no “superar os outros”, mas acabou levando isso para o “ser mais esperto que os outros, superando-os assim”. Como Pierre também estava no time de basquete, começaram a passar um bom tempo juntos e criar uma amizade verdadeira.

Britney, como já dito antes, passava a maior parte do tempo na sua, pulando de rodinha em rodinha dependendo do humor. Geralmente sentava-se no fundo da sala, não exatamente na turma do fundão, mas quase. O suficiente para que pudesse se desligar em seus devaneios caso a aula estivesse desinteressante.

Como não podeira deixar de ser, a época da adolescência é cheia de loucuras e festas, beberagens exaltadas e afins. Mais ainda no terceiro colegial, onde Pierre e Ronald estavam. Falemos então de uma específica, que foi um grande apuro para o último.

Zezé foi figura marcante durante todo o tempo que esteve no Domus. Carismático, burro feito uma porta, mas ao menos esforçado. E adorava se divertir. Era criativo demais quando tinha que inventar algo para a própria diversão, ou de amigos. E como dinheiro era o que não faltava para sua família, ficou conhecido mais ainda entre os mais velhos do Domus quando no colegial começou a dar umas festas numa casinha da família (dentro da mansão da mesma).

Zezé marcou uma grande festa logo depois da recuperação do meio do ano. Como de costume, convidou todos que conhecia, e esses não eram poucos, poderiam, ser por baixo, umas 200 pessoas. Contando os penetras e amigos de convidados, podemos concluir que literalmente uma festa de arromba aconteceu.

Ronald foi com alguns amigos, principalmente para encontrar Andreia, uma garota com quem estava ficando. Estava investindo para que pudesse fazer o tal “ficar” algo mais sério. Não que realmente gostasse tanto assim da garota, mas “ia ficar mais fácil de comer”, e o sexo, realmente, era ótimo com ela. E difícil, já que ela era gostosa, sabia disso, e adorava ver os garotos com as bolas doendo.

Britney foi com Juliana, uma amiga porra-louca que adorava encher a cara, mas era uma companhia para horas de risadas, bêbada ou não. Era também bastante amiga do Zezé, que conheceu quando se ofereceu para organizar a festa junina do ano passado na escola, e ele fazia parte da equipe. Os dois viraram amigos instantâneos devido ao selvagem brainstorm de ideias de ambos , e ela sempre foi convidada para as festinhas dele.

A festa estava bombando, como dizem. Música alta, bebida quase infindável, e um estoque imenso (mas que acabou no meio da noite, porém) de salgados e frituras.

Ronald passou umas boas duas horas só conversando e bebendo, pois não achava Andreia em lugar algum. Mas se divertia, e poderia comer alguem caso ela não viesse. Era só tomar cuidado para que nenhuma fofoqueira visse, e com o tanto de gente, seria fácil. Não fazia ideia do que estava tomando, mas caralho, a batida estava ótima. Já contou uns quatro copos, todos levinhos e doces. Parecia um suquinho.

Britney se divertia dançando na “pista” improvisada na sala. Estava apertado demais e ela tinha que berrar para conversar com Zezé e a Juliana que estavam ao lado dela. Cansada depois de um tempo, foi até a cozinha pegar algo para comer e beber. E teve a mesma sensação agradável quando tomou a tal batida. Tanto que sem perceber logo estava no terceiro copo. Alegre, pelo efeito do álcool, já ria alto e muitas vezes de si mesma. Mas logo após uma longa gargalhada de algo randômico, quando ergueu a cabeça, sentiu que algo estava errado. Algo na bebida. E parou por alguns instantes para se concentrar.

Ronald já estava desencanado, ela não viria mais. Já estava bêbado, provavelmente bebeu uns 12 copos da já dita batida. E se divertindo e falando enrolado, cantava garotas randômicas, lá fora, perto da piscina. E enquanto se agarrava com alguma, João, um amigo, veio e lhe falou que Andreia estava lá, no andar de cima, na sala de TV. Ronald ficou ainda mais uns bons vinte minutos com a garota, e dizendo qualquer desculpa, saiu para ir atrás da tal pretendida. E a encontrou, na tal sala de TV. Junto com algumas outras pessoas. Junto com alguem. Abraçada com alguem, que parecia bem mais velho. Na verdade, ela estava sem parte da roupa??

Britney se levantou, foi até o banheiro, lavou o rosto e ficou uns cinco minutos tomando ar em uma pequena varanda, e logo voltou para dentro. Procurou Zezé, mas esse estava realmente doidão, já na piscina com roupa e tudo, dançando e berrando. Mas estava ainda alegre, nada descontrolado. Só tinha certeza que tinha a ver com o tal álcool “potencializado”. E ficando de espreita na cozinha, percebeu que quem fazia as batidas estava realmente adicionando alguma coisa, um pozinho estranho que fosse. Percebeu também que o que quer que fosse aquilo, já havia acabado, pois o tal desistiu, e provavelmente foi ver, de uma maneira sádica, os frutos de sua obra. Como não tinha muito o que fazer, Britney foi curtir a festa, mas consciente que deveria só beber refrigerante lá, e de preferencia ela abrir a lata.

- Andreia, quem é esse cara? O que é isto? – Ronald falava, forçando para as palavras saírem. Uma sensação estranha parecia invadir suas entranhas.

- E te interessa? Caí fora, não te devo satisfação moleque

- Mas…..

Ela se levanta, e seja já quem for que estivesse junto também, rindo muito.

- Deixa ele aqui Dé. Vamos é para um quarto.

- Pera caralho – diz Ronald, já puto, avançando para ambos, mas o tal homem facilmente o segura e o derruba no chão, provocando risos de todo mundo em volta. E no que passam por ele, Andreia olha, um misto de desprezo com um pouco de riso dizendo:

- Para de ser tonto moleque. Cresce. Nunca disse que tava a fim de você, só quis trepar.

Essas palavras levam o garoto para outro lugar. Uma sensação estranha, horrível, porém familiar. Uma dor, uma dor de perda, uma dor do passado. Era como se nada do que viveu tivesse valor, que tudo foi apenas distração para fugir dessa dor. Que agora voltou, e com tudo. Um misto de medo e raiva invadia Ronald. A bebida atrapalhava a linha de raciocínio que ele tentava formular, e lembranças do choro que ele não guardou quando a mãe morreu começavam a voltar. Num momento e movimento brusco, ele se levantou e saiu correndo dali. Correndo não, tentando, pois estava zonzo. Muito zonzo, e cambaleando. Mas ele só queria chegar até a cozinha. Pegar mais bebida, algo em sua mente dizia que ele precisava “beber para esquecer”. Lembranças do pai fazendo isso, e lembranças estranhas o sondavam, que ele não conseguia lembrar de onde vinham. Se lembra apenas de pegar umas duas garrafas de alguma coisa e sair para o jardim.

Escapando de ser jogada na piscina pelo menos umas duas vezes, mas não deixando de jogar umas duas ou três amigas, Britney vê as horas quando passa pela sala. Quase quatro da manhã, e como que por mágica, a consciência das horas faz todo o cansaço aparecer. Liga para o sr. Zilnei, taxista que sempre a levava para casa nas madrugadas que saia, e foi procurar pela Juliana, que voltaria junto com ela. A achou dormindo num sofá, junto com algumas outras trêbadas. Zezé disse que não teria problema, que ela poderia ficar por ali. Britney pensou um pouco se a amiga estaria realmente segura por ali, mas ele a tranquilizou dizendo que não teria problemas. Ela então se despede dele e pegando suas coisas, dirige-se para a saída da casa para encontrar com o taxista.

Britney e Ronald

Pobre Ronald. Estava passando por um apuro imenso. Sentia-se impotente e putíssimo por saber que aquilo foi apenas um fora. Não era, com toda certeza não era para ele se sentir assim. Algo estava errado, e para seu maior desespero, ele não conseguia criar uma linha de raciocínio para descobrir o que era. Lembranças da infância, da mãe e do pai o invadiam e o atormentavam. Seu único conforto era o gelado vento e o gosto da vodca descendo por sua garganta, queimando por alguns instantes e o ajudando a escapar desse tormento. E cada vez mais o garoto se sentia exausto nessa batalha interna. E um medo começou, como se algo estivesse espreitando apenas para dar cabo dele. Um medo imenso de ser aniquilado da existência. Algo que não fazia nenhum sentido. Mas que estava lá, uma sensação de desespero e apreensão, sabendo que algo estava completamente errado.

Estaria ele sonhando? Ele via tudo o que aprendeu, tudo o que fazia na vida, tudo girando, literalmente em volta dele. E ele via a vida tranquila que tinha antes da mãe morrer, ou pelo menos os momentos tranquilos, como uma distante imagem, atrás dessa nuvem conturbada de pensamentos e sensações. E internamente sentia que sua mãe estava vendo e sentindo o medo do filho. Sentia uma vontade imensa de voltar para o colo dela. Mas ela não estava lá. Ou estava? Ele a via, tinha certeza que a via através desse véu confuso. Um fio de voz começou a chamar pela mãe, quase imperceptivelmente. E para sua surpresa, ele sentiu a mão amiga da mãe em seus ombros. Parecia que um peso enorme saia de seu corpo, ele se sentia aliviado. E ao que parece, tudo se apagou, mas estava tudo tranquilo.

Ronald sonhava que estava montando um castelo de Lego, mas ele estava do lado de dentro. Era um castelo perfeito, mas ele percebia todo o trabalho que teria para sair de lá depois que terminasse. Mas sabia que tinha que terminar, e também que tinha que sair. Mas resolveu apenas escolher as peças e montar, parando por alguns momentos para repensar no dilema.

E ele finalmente acorda. Uma leve, mas incomoda dor de cabeça e nas costas. Ele vira para ver no seu aparelho de som as horas, e percebe que ele não esta lá. Uma olhada rápida em volta e cai a ficha de que ele não estava em casa. Procura pela carteira e encontra no chão, ao lado da cama. Mas nem sinal de sua camisa e agasalho. Um odor de comida vindo de fora do quarto ataca de forma cruel sua barriga. Ele estava faminto. E curioso para saber onde estava. Saindo mesmo sem camiseta, apenas enrolado em uma toalha, sai par descobrir onde estava.

Britney estava terminando de cozinhar uma lasanha quando escuta Fringle latir. Olhando para o quintal, vê Ronald ainda desorientado pela luz forte do sol da tarde chutar uma bolinha para o cachorro, que prontamente vai à caça da mesma.

- Bem vindo de volta ao mundo dos vivos, boa tarde – diz para o garoto, que ainda não a havia percebido.

- Ah, oi…Britney. Nossa, nem lembro de ter visto teu irmão ontem de noite. Eu… vou lá falar com ele, ele tá no quarto?

- Ahn….Na verdade não, tipo… entra, tua cara não engana ninguém que você tá morrendo de fome.

Ele ia argumentar algo, mas não tinha como discutir contra a fome.

- Vou buscar uma camiseta para você, uma do Pi deve servir.

- Mas a minha….

- Relaxa, eu te explico o que tá rolando já já.

Ronald conhecia pouco Britney, mas sabia que ela já ia fazendo as coisas enquanto falava. Pegou um copo de água e sentou junto a mesa. Logo a garota retornou com uma camiseta do irmão, que entregou a ele e logo em seguida foi ao fogão de aço escovado retirar do forno a lasanha. Serviu-se de um bom pedaço e colocou outro no prato dele. Ambos comeram em silêncio, até que Britney, após guardar a lasanha novamente no forno olha séria e fixamente para ele:

- Tá tudo bem com você mesmo??

Ronald se sente um tanto confuso e sem saber o que responder. Lembrava de algumas coisas da noite passada mas estava mais interessado em saber como veio parar onde estava.

- Ah, tou sim. Devo ter bebido demais, já falei né, nem lembro como teu irmão me trouxe pra cá. Cadê ele aliás, não vai dizer que ele foi sacana o bastante para me largar aqui…

- Bom…. não foi ele que te trouxe até aqui. Fui eu.

- Você? Mas…

- Deixa eu contar! Ontem eu estava saindo da festa do Zezé, e no que eu peguei o taxi e estava saindo, eu vi você caído do lado de uma árvore, na entrada da casa. E você não parecia nada bem. A bebida ontem foi batizada, você sabia?

- Não…

- Foi, eu percebi e parei de beber. Por isso que teve tanta loucura. Mas voltando… você estava com uma cara estranha. Eu mal te conheço, te vejo na matemática e quando vem aqui em casa junto com o Pi, mas tava óbvio que você não estava bem, Parecia acuado.

Ronald nada fala, lembrando dos momentos que tinha passado. Ou tentando lembrar.

- Eu sabia do seu lance com a Andreia e o que tinha acontecido. Metade da festa soube. O pessoal bêbado fica mais fofoqueiro do que costuma ser – Ronald sentiu uma pontada de vergonha nessa hora – mas acredito que não foi aquilo que te deixou assim. Mas também não importa… o que acontece é que eu pedi para o Zilnei parar e fui ver como você estava… foi daí…bem…

- O que houve?

- Bom, – disse Britney – Você estava balbuciando algo sobre sair dali, ir até onde ela estava…. e quando eu toquei em seus ombros para falar com você, bom, primeiro você segurou minhas mãos e achou que eu fosse sua mãe – E ele fica mais sério ainda, com as lembranças do que houve – e depois….. bom, depois…. você lembra?

- Eu lembro….. – ele hesita por um momento mas resolve falar, algo nos olhos da garota ao mesmo tempo o intrigava, por ser de uma coloração castanho incomum (que mais tarde veio a descobir ter o nome de hazel) mas inspiravam uma confiança que ele não sentia desde a época da mãe – lembro que via um monte de imagens e minha mãe ao fundo querendo ajudar. Ela segurou minha mão e de repente tudo ficou mais leve

Ela então ri, olha para ele com um sorriso, mas logo se segura para não continuar rindo, pois ele estava sem nada entender.

- Ah, sim…. deve ter ficado…. hehe… afinal, você vomitou praticamente tudo o que tinha na barriga. Em cima de mim e de você.

Não há palavras para descrever o quão vermelho ele ficou. Britney ficou olhando para ele com uma sobrancelha levantada, e por fim disse.

- Pronto, já sabe o que aconteceu com sua camiseta e agasalho. O pior disso tudo é que você praticamente desmaiou depois, e foi um trabalho tirar sua camiseta, te colocar no taxi, te levar até a cama. Ainda mais porque não tinha ninguém aqui para me ajudar. Meus pais e o Pi foram para a casa de praia.

- Putz, ele disse, cara…. meu que vergonha, me desculpa… eu….

- Claro que você não teve culpa, relaxa. Foi nojento, o mínimo que poderia acontecer seria eu ter vomitado de volta em cima você. Sorte tua que bebi pouco haha.

Ele olha sério para ela, que não para de rir, e por fim, acaba entrando na onda e rindo por uns momentos também….

- Olha, valeu! Brigado mesmo por ter me tirado de lá. Uma coisa que eu odiaria seria acordar vomitado no meio da rua…..

- Não tem problema não.

- Não, tipo sério. Assim, a gente mal se fala, teu irmão sempre falava que você era diferente e esquisita, e… bom, eu achava isso. Eu acho uma coisa muito, assim, embora não pareça, eu acho, é, tipo…

-Você tá se enrolando… fala logo

-Haha, desculpa. É que o que você fez me lembrou algo que minha mãe me ensinou a tempos atrás, sobre o valor de ser legal com os outros. E você fazendo isso comigo, que mal me conhece, sei lá, é algo, nobre, sei lá.

-Ainda tá se enrolando. Relaxa, tá tudo certo. Não dava pra te deixar daquele jeito também. Mesmo você sendo amigo do meu irmão e não meu, mesmo você sendo um chato as vezes nas aulas de matemática e ficando revoltado com alguns nerds de lá. Eu não ia me sentir bem largando alguém daquele jeito. Além do mais… você já fez algo parecido também seu bobo, a lição que tua mãe te deu tá em você já.

- Como assim??

-Elisa, uma moça que trabalha aqui me contou uma vez que você ajudou o Fringle quando ele se enroscou no portão. Eu sei que você não tinha nada a ver com isso, meu irmão nem deu bola, mas, você foi lá e ajudou ele. Porque achou que devia. E eu fiz o mesmo. Vamos considerar que estamos empatados agora.

Ronald voltou para casa no final da tarde, passou a tarde conversando com a garota enquanto esperava sua camiseta secar. Os acontecimentos da noite passada pareciam distantes, bem distantes.

E com o passar do tempo, os dois foram ficando bastante amigos, afinal, se viam quase diariamente nas aulas de matemática. E depois de alguns meses, ele percebeu estar sentindo algo por Britney, mas estava um tanto receoso, ainda mais por ser a irmã de seu amigo. Mas a verdade era que ele se sentia bem perto dela, algo que não sabia nem explicar o porquê. Então, num certo dia após a aula, quando estavam tomando um café na Brunella (uma espécie de ritual para ela), no meio de uma conversa aleatória qualquer, ele arrisca um beijo. E ele guarda esse momento até hoje. Não pelo namoro que começaria, mas por ter sido única vez que a viu com aquela cara, de quem acabou de ser surpreendida.

O vestibular não foi exatamente bom para Ronald. Seu pai esperava (e de certa forma, pressionava terrivelmente) para que o garoto “se formasse com méritos” no Largo São Francisco. Como ele o o avô. Todo aquele blá blá blá de continuar com os negócios da família e tudo o mais. A verdade, porém, é que nem ele mesmo sabia o que queria. Nunca havia parado para pensar nisso até que Britney o questionou uma vez. Ficou até mesmo um tanto bitolado em relação a isso, chegando até mesmo a fazer alguns (com s mesmo) testes vocacionais, e viu, que seus interesses eram realmente variados demais. Resolveu fazer cursinho no ano que seguia, sugestão dela, afinal, assim poderiam estudar juntos. E a maior parte das vezes, foi estudo mesmo.

Pierre ficou um pouco desconfiado nesse primeiro ano de namoro, um tanto com ciume da irmã e também do amigo. Mas logo acabou deixando isso de lado, acabou até mesmo se aproximando um pouco mais da irmã. E uma noite, quando estavam comendo em alguma lanchonete, uma conversa sobre o futuro surge.

- Não tou contente com a faculdade não. Nem era o que pensei, um bando de playboizinhos que são ou metidos a reacionários ou a comunistas, chega a ser um saco.

- Para de reclamar de boca cheia – Ronald diz – deve ser melhor que cursinho.

- Pi, é só o segundo semestre, e você já acha essa perdição é?

-Não é isso, sei lá. Acho que a gente tinha uma imagem romântica demais da universidade. Pra mim agora é só uma maquina de fazer pensar da maneira que os outros querem. É sério. Naldo, as vezes penso em levar aquele plano daquele churrasco pra frente.

-Ué, que plano é esse que não tou sabendo??? – Pergunta Britney

- Ah, é uma coisa que a gente combinou, travado de cachaça, uma vez num churrasco da vida, que iriamos estudar fora do Brasil.

- Ah, Imagino que queira ir para Cambridge, virar um verdadeiro “sir”. Ou talvez na Sobornne para o Pi virar um francês fresco de verdade ahaha.

- Cala a boca magrela! Não é brincadeira não.

- Haha, desculpa, eu não pude deixar de imaginar a cena – responde ela respirando fundo para se recompor, e depois, um pouco mais séria, fala – Mas então por que não levam isso adiante?

- Nem rola agora, depois de estudar tanto? – Responde Ronald – e com poucos meses para o vestibular, quero mostrar que o que aprendi não foi a toa!

- “Quero mostrar, vejam, vejam, olha como eu fui bem” – Britney diz já voltando a rir e arrancando risos do irmão, e completa olhando sério para o namorado – Quer parar com esse senso besta de competição? Ronald ri por um instante, e logo responde:

- Mas não passa de uma competição ué. Você contra outros que estão disputando com você!

- Não, não não! Naldo, isso é o que fode todo mundo que faz, a ideia de pensar no outro, a porra do japonês que está estudando mais ou o caralho a quatro. Não, vai lá, faz o que aprendeu, foda-se se o outro sabe mais ou menos. Eu posso ser mais burra, chutar, acertar mais que você, e ai? Provei o quê? Que sou sortuda?

- Calma magrela – Pierre responde

-É, eu sei, é que quis dizer isso de uma, hã, maneira diferente… – Ronald completa.

O primeiro ano da faculdade de ambos acabou deixando os dois com praticamente apenas os finais de semana para se ver. Ronald estava contante por ter conseguido passar, Britney estava gostando de passar por toda a faculdade.

Todo o incidente do Despertar de Britney fez com que o garoto se tornasse mais grudento. Internamente ele sentiu aquele medo estranho, não queria perder alguem como havia perdido a mãe e ter toda aquela confusão que teve na festa de anos atrás.

Porém após o despertar e com os ensinamentos de Pai Galo, a garota foi percebendo que o mundo, realmente não era nada como ela pensava que fosse. Toda a sensação de infinidade de todas as coisas fazia com que ela, que já era normalmente distraída e aérea ficasse mais ainda perdida em devaneios. Que não eram bem devaneios, eram lembranças, era a sensação mágica de olhar os padrões do mundo. E isso as vezes era uma sensação maravilhosa, outras algo horrível. Era possível ver toda a alegria e ao mesmo tempo todo o sofrimento do mundo. Ronald estranhava quando ela repentinamente mudava de humor, chegou até a pensar que ela estava com algum tipo de transtorno bipolar, mas por mais que ela fosse instável, ela ainda era uma das pessoas mais lúcidas que ele conhecia. E ela tranquilizava suas preocupações de uma forma quase que mágica. O único lugar onde ele realmente se preocupava e ficava nervoso era na faculdade.

Britney passou a frequentar o Terreiro do Pai Galo alguns dias da semana, passou também a visitar algumas igrejas e alguns lugares dos quais ela gostava de falar, mas nunca tinha chegado realmente a ir. Ronald guarda algumas más lembranças dessas incursões, mas tirando algumas opiniões particulares não reclamava muito.

E em uma particular noite, no dia de São Pedro, Pai Galo e Britney estavam terminando de celebrar os festejos, ele entra em um de seus transes, e ela, já acostumada com os mesmos, foi terminar de arrumar as coisas, limpar a sala, enfim, a rotina de sempre. Terminando, começou a ler um livro falando sobre a Estrela de São Pedro, mas logo foi chamada por Pai Galo:

-Fia vem cá um poco tem um assunto importante para tratar com tu

-Claro painho, o que foi!

-É teu namorado ele tá passando por um apuro aí e cabe a tu ajudar ele, eu num apercebi antes porque nem sei. Mas ele percisa da tua ajuda fia.

Britney se assustou e ficou séria

-O que houve painho?

-Tu tá sabendo que ele fica meio estranho sempre antes de te ver e que ele anda confuso as veiz. Desde quando assuncê contô a historia do dia da festa eu adesconfiei sabi? Mas agora que fui ver, alias, vieram mi amostrar porque é sério e precisa de ajuda sabe?

-Painho fala logo!

-O Pai dele, num sabe? Ele sofre uma influencia ruim de espiritos, uns ai que não querem muito o bem do mundo e menos muito da gente como nois. Então ele tá perdido e desviado, e isso passa, essa energia vai de pai para fio. E um portal forte de dano se abriu quando a mainha do moleque morreu, ele ficou vulneravel, e isso foi adentrando nele, sabe? Mas ele tinha santo bom, e a mãe cuidou dele de longe, mas num pode faze isso sempre. E depois tu fez o mesmo, tu passou a cuidar dele e fortalecer as defesa. Mas agora ele tá vulnerável justamente aporque ele tá num lugar onde as defesa dele enfraquece e aqueles que atacam são mais forte.

-E que lugar é esse? A faculdade?

-Isso fia, lá é um lugar que umas entidade que tão contra um monte de coisa age. Um monte de coisa que quer mantê a estaticidade do mundo do jeito que é. E isso é bem o que o pain dele tava tendo pobrema.

-O que dá pra gent… ´para eu fazer painho?

-Ele tem que sair de lá, senão até a essência dele vai ser dominada. Tem que tirar ele dali e para ele num ficar sufocado fia

Britney engole em seco

-Para longe?!?

-Eu sei que é dificiu fia mai é pro bem dele, e pro seu também. Purque você sabe o motivo da gente estar aqui e sabe que nossos inimigos vão usá o que puderem contra nois.

-....eu entendo…. e acho que já sei como fazer…. quer dizer, sei como fazer mas não entendo mesmo…. enfim….sei lá….

-É duro mesmo fia, essa bataia é dura! E ela tá só começando…

Britney sentiu um aperto no peito. Ela nunca foi de se apaixonar, mas gostava realmente de Ronald. Olhando para a ilustração da Estrela de São Pedro, ela pedia forças para poder continuar, pois pressentia que muitas coisas ainda estavam por vir.

Ela passou então a notar as sutis mudanças no comportamento do namorado, e a traçar o quanto a faculdade estava realmente condicionando e influenciando sua vida. Em conversas com Pai Galo e com outros Coristas, descobriu que o Largo São Francisco é um ponto de alguma facção parecida com a Tecnocracia (teria ela ouvido algo do tipo Vampiros?). E com o tempo foi vendo que o negócio era sério. E ainda com o coração apertado, mas também assustada com o que poderia acontecer, começou a traçar um plano. Algo que tinha pensado quando Pai Galo falou sobre o garoto, mas que havia deixado de lado na esperança de que uma solução menos drástica pudesse ser tomada.

E num plano ardiloso, por assim dizer, onde ela se sentiu extremamente culpada por estar mentindo, mas segundo Pai Galo, que recitou algum antigo poema oriental, tudo fazia parte de um grande jogo onde teríamos que vestir algumas máscaras e fazer alguns papéis, ela conseguiu aos poucos reacender o desejo do irmão e do garoto da viagem pela Europa, e mais especificamente ainda, do Pai de Ronald sobre os benefícios de uma possível viagem. Nada diretamente, apenas sugestões e ideias sutis (algumas até com o auxílio de mágica), fotos na hora exata, propagandas e “ligações de amigos” que pareciam coincidência demais.

E em um jantar na casa dos Paula Andrade, num jantar, ela puxa o assunto na mesa, que tem uma receptividade ótima. Ela chega até mesmo a contar a história dos planos do irmão e do namorado. E depois do jantar, junto com ele na sacada, olhando para os céus ela fala:

-Falei que seu pai não ia se opor a ideia bobo!

-Nem fala assim magrela, sei lá porque essa ideia parece tão próxima ultimamente. Vou acabar ficando na vontade hahah!

-Porque quer bobinho! Você não devia perder essa chance.

-Não ia querer ficar longe de você né! – Diz beijando a testa dela – E se você viesse junto hein? Haha!

-Eu não tava nos planos originais, isso é coisa sua e do Pi. É uma viagem de vocês, não ia querer sobrar para lavar cuecas – diz rindo – E mais uma vez você tá olhando pelo foco errado! Não deixa de fazer isso por minha causa não! – já mais séria – Isso é um sonho seu e tenho certeza que é algo que ia te fazer bem.

-Ficar longe de você não ia me fazer bem!

-Ia sim, pare de olhar por esse lado do apego. Como você acha que ia ser HORRIVEL pra mim saber que você não tá fazendo algo que sonhou por MINHA causa?

Ronald não responde, e fica olhando para os céus também.

-A gente não pode limitar nossa vida por causa de outra pessoa Naldo. Isso é algo que por mais que você não acredite ou não entenda, enrosca demais, tanto psicologicamente quanto espiritualmente. Eu gosto demais de você, e só quero o teu bem. Quero ver você feliz, sem nenhuma preocupação. E eu sei o quanto você se preocupa com as coisas. E comigo. E não tou reclamando não – Ela respira pausadamente para segurar um possível choro – É algo que eu adoro, mas você NÃO PODE deixar de viver por mim….

-Credo magrela, parece que você tá querendo terminar.

-Óbvio que não besta, com certeza não, isso seria é mais um recomeço. Pensa na ideia, por favor. Pensa em você. Não vai mudar nada entre a gente, só a distância ora!

Ele não responde de novo, e acabam dormindo na sacada do quarto dele, entrando quando o sol nasce.

A viagem enfim, é marcada. Tanto o namorado quanto o irmão trancam a matrícula na faculdade, fazem alguns testes para uma possível transferência e são aprovados. Esse tempo é cruel para ela, mas ela sabia que era o melhor a ser feito. Ela também deveria aprender a lidar com seus orgulhos, apegos e luxúrias, e isso seria bem mais que um teste.

Na noite da viagem no aeroporto, a tradicional despedida melosa dos pais de Pierre, a um tanto fria do pai de Ronald e a calorosa dos dois namorados. Ronald prometeu que iria voltar e “cuidar dela da maneira como se deve”. Britney não deu muita atenção, mas ele repetiu isso várias vezes. Ela apenas pediu para que ele não se esquecesse dela, mas não deixasse de viver por causa dela também. Falou para quando passassem pela França, o que fariam logo no começo para a documentação de Pierre, que ele pegasse uma muda das plantas de Lavanda (e tinha que ser dos campos floridos de lá) e cuidasse da mesma, que sempre que quisesse se lembrar dela, bastaria cuidar e conversar com a plantinha, que ela saberia.

Ela não conseguiu segurar o choro quando o avião partiu, mas prometeu para si mesma que não iria esmorecer. E voltou, em silencio, mas com um alívio de ter feito a coisa certa, para casa.

Durante os dois primeiros anos que esteve fora, Ronald escrevia diariamente, telefonava quase sempre também. Com o tempo, os contatos foram ficando mais distantes, uma vez chegando até mesmo a ficar uns 3 meses sem receber notícias.

No começo isso doía para Britney, mas o tempo havia de tudo curar e aprontar mais algumas surpresas.

britney_ronald

Mago Sophuz