Crenças e Clareza

O frio do começo de agosto era especial nas manhãs. Daqueles que não dá vontade de se sair da cama. A neblina que se formava em cima da represa dava a impressão de que a Capela se encontrava em meio a uma floresta inglesa. E a cara de sono de Brtiney era evidente, mas ela tinha afazeres na Capelinha.

Enrolada em um xale que mais parecia um poncho, ela pega um Todinho qualquer da geladeira, toma coragem e saí para fazer o pequeno ritualzinho de velas, mantras,canções, rezas e afins que fazia toda semana.

E chegando na pequena igrejinha, vê que alguem já se encontra por ali; Raquel, uma das mais novas acólitas do Coro Celestial, estava sentada em um dos banquinhos, ao que parece rezando. Mas a uma segunda vista, ela estava na verdade, chorando.

Britney conhecia um pouco da história da garota. Ex-conventista, vinda de uma família tradicionalista (na verdade, quase que extremista) no quesito de religião, e que teve um despertar bastante caótico, daqueles que derrubam todas as crenças e deixa a pessoa confusa demais. Nem é preciso dizer que isso complicou bastante a relação dela com a família, principalmente com a mãe. E em toda essa passagem, a garota encontrou em Britney uma espécie de irmã mais velha, para quem pedia conselhos e ajuda. Britney em parte entendia o sofrimento da menina, ela passou por uma confusão semelhante quando Ronald viajou e o Ser da sessão de Catimbó Jurema mostrou o quão fragmentada ela estava e o quanto não sabia o que queria ou qual aspecto de si realmente queria.

Ela acende as velas do altar principal e do menor, onde ficam diversas imagens de divindades diversas. Acende alguns incensos também e vai em seguida sentar-se ao lado de Raquel, que finalmente se dá conta que ela esta ali, e limpando o rosto (com o lenço que Britney deu para ela), diz:

- Oi Bri, desculpa eu ter vindo cedo assim!

- Só peça desculpas por não ter se agasalhado nesse frio, não quero ver você doente! – Britney coloca o xale sobressalente que ia usar na garota – Como você está?

- Confusa… pra variar… ai, eu só te encho com isso né?

- Bobagem, eu estou aqui para isso mesmo – Por alguns milésimos de segundo, o peso quase que infinito do fardo da caridade tenta assustar Britney – O que foi que houve?

- Eu… tou confusa… tem tanta coisa acontecendo e tou assustada. Não sei explicar, acho que ia parecer bobeira ou confuso demais para você entender, sabe?

- Acredite, eu entendo BEM o que é isso. Você sabe que pode confiar em mim, então, se quiser tomar coragem para falar, o que alías, é um belo exercício para acabar com o medo, me ajuda com os rituais aqui, que tal? Aí você aproveita e aprende alguns também.

- Tudo bem!

As duas então se ajoelham entre os altares, e depois de alguns minutos de silêncio, Britney começa a puxar alguns cânticos e mantras. E conforme vão sendo recitados, elas vão pouco a pouco manipulando o as linhas desarmônicas e destoantes na reflexão do Padrão na capela. Britney sempre adorava sentir e viajar na energia e Harmonia nesses rituais, mas desde que passou a ser a liderança do Coro, ela tem que manter um certo grau de concentração para dirigir o mesmo e corrigir possíveis desarmonias gritantes. Raquel teve um pouco de dificuldades para se entregar no início, mas depois a Canção das duas fluiu tranquilamente.

Após o término do ritual, as duas sentaram nos degraus da entrada. Cada uma enrolada em seu xale, olhando para as flores do belo jardim que cercava a igrejinha.

- O principal problema dessa confusão toda é se perder nela – Britney começou, vendo ainda um pouco, embora bem menos agora, de receio e até vergonha em Raquel – Eu passei por algo parecido já. Não nos motivos provavelmente, mas sua cara tá o meu xerox daquela época. Confusa, com medo, em dúvida sobre o que está sentindo – e olhando mais uma vez diretamente nos olhos da garota e arrumando os óculos que escorregavam pelo nariz, arremata – e tem algum problema com alguem que você gosta também….

- Ler a mente também é sacanagem! – Raquel já responde um tanto contrariada – Mas é isso tudo mesmo!

- Não que eu precisasse, praticamente seus pensamentos que tavam me invadindo – Ela responde rindo – Se não quiser falar sobre isso, tudo bem.

- Não, não, tudo bem, vai ser bom desabafar…

Raquel então conta sobre todo o conlito que teve com a família quando abandonou o mosteiro, sobre como o despertar a deixou cheia de dúvidas e sobre como tudo parecia tão diferente. E incrivelmente antagônica a tudo isso, sua fé aumentava de uma maneira muito grande. Mas algumas vezes, as dúvidas escureciam e questionavam essa fé. Ela revelou até mesmo que Britney com seu jeito eclético demais a deixava confusa, justamente por ter sido a pessoa no Coro que melhor a acolheu depois da traumática semana. Ela sentia culpa pelos seus desejos passados, sentia que realmente gostava de uma pessoa mas sentia essa mesma culpa por gostar, mas sabia que não deveria sentir porque era algo que era puro, enfim, Britney praticamente viu uma cópia descarada do apuro que passou alguns anos atrás.

Raquel parecia um pouco mais aliviada, e enxugava as lágrimas encostada aos ombros de Britney, que falava:

- O principal motivo dessa confusão é a consciência da Harmonia do universo que nós ganhamos. E Aí percebemos o quão desarmônicos nós mesmos somos. E isso é um baque, quero dizer, assusta pra caramba, a gente ganha um discernimento apurado o suficiente para perceber que tem coisas que não estão de acordo com o que sentimos ou pensamos, ou mesmo em harmonia com toda a Existência. E parece que a gente fica fragmentada em milhões e milhões de pedaços. E não temos certeza do que é realmente a nossa essência nisso tudo.

- É bem isso mesmo, eu me sinto perdida. Em pensamentos, vontades, dúvidas…

- Bom, o problema é que isso não para. Até hoje algumas dúvidas me perseguem, e é difícil de entender e aceitar algumas coisas. E isso é normal, nossa meta é nos harmonizar com o Uno e a Existência para ser uma coisa só. Mas se chega lá devagarinho, passo a passo. O meu foi, e o seu será, agora, perder todo esse medo do que tá acontecendo, porque isso te dá uma clareza maior para realmente conhecer o que tá aí dentro – Britney aponta para o coração de Raquel – e, sabendo de tudo isso, dar o próximo passo.

- E não se preocupe – continua ela – eu vou te ajudar com isso. Seja com conselhos, exercícios ou o que for. Mais uma vez eu tou aqui pra isso.

- Poxa, obrigada Bri. Sabe, é tudo tão estranho, o que acreditamos, Deus, o Uno, o que deveria ser união, e toda essa fragmentação.

- Na verdade até faz. Mas isso fica para umas explicações futuras, eu vou precisar dar uma passada no trabalho para resolver algumas coisas. E também ver como a Carla está. Mas vou deixar uma tarefa aqui para você. Eu quero que você passe o resto da manhã aqui na Igrejinha e treine sua arte em perceber a Emanação da Harmonia. Seja no altar, nas imagens, existe todo um padrão que ressoa deles. Eu quero que você estude os mesmos. E garanto que vai ser algo maravilhoso, tanto pelas sensações que você vai descobrir quanto pela Arte que existe nelas. Hoje de noite a gente continua a conversa, e eu falo mais sobre toda essa fragmentação.

- Tudo bem Bri! Eu te espero!

- Divirta-se por aqui e se cuide! – E Britney se despede com um abraço.

Raquel nem percebe o tempo passar, absorta em seus estudos sobre o Primórdio. Espera por Britney até tarde da noite, mas ela não retorna, e acaba tendo que voltar para sua casa, pegando carona com Sandoval, o paga pau. Uma sensação estranha invadiu a garota algumas horas antes, como se toda a Essência que estava em volta dela desde a manhã sumisse subitamente, e que Britney estivesse passando por algo. Mas imaginou que isso fosse apenas parte de sua confusão gigante que a atormentava. Amanhã veria Britney e continuaria com a conversa que tanto lhe esclarecera.

No dia seguinta, chegando na Capela na parte da tarde, sentiu um aperto no coração ao saber o que houve, e depois de muita insistência pode entrar no PS para ver como Britney estava.

Lá chegando, a viu sentada na cama da enfermaria, ao que parece escrevendo algo em seu laptop.

-Bri! Tá tudo bem com você? Isso tudo que falaram é verdade??

Crenças e Clareza

Mago Sophuz