Fragmentação e Posse da Ação

Dia na capela

Com o canto dos olhos, Britney espiava Ranmaru e Fionna descendo para o que deveria ser o PS ou os vestiários, enquanto brincava de Jankenpo com Lucas e também filtrava um material de pesquisa sobre algumas pessoas desaparecidas. Kyubi dormia aos seus pés, e a região da piscina parecia como que por milagre, tranquila. Tranquilidade essa que era sempre apreciada, pois o tempo parecia que parava, deixando o momento em si expor toda sua arte, mesmo que por alguns segundos.

- Lucas, está na hora de tomarmos o refrig…. nosso remédio. Venha, não vá enrolar como sempre! – Priscila chama, tomando o cuidado de não entrar na área da piscina para não arriscar de maneira alguma molhar seus sapatos engraxados impecavelmente.

O garoto olha para Britney com a tradicional cara de cão sem dono pedindo ajuda, mas ela o desarma logo dizendo:

- Nada disso senhor Lucas! Poxa vida, acho que você é a única criança que conheço que reclama quando chamam para beber refrigerante… haha! – E olhando para a careta de frustrado do garotinho, emenda – Vai lá, aproveita que tá na hora de tomar um lanche também, e mais tarde eu vou te ensinar como fazer pedrinhas saltarem lá na represa. Feito?

A resposta vem com um aceno de cabeça e um sorriso, e Lucas corre para junto da irmã, com seus passos respingando as poças de água que se formaram por ali, para horror da irmã, que desastrosamente tentava desviar das gotas, e diversão de Britney, que riu de toda a situação.

Voltando ao trabalho, ela agora encontra a parte da atenção que dividia com o garoto e vendo os arredores livre para seus devaneios, que logo vem, com ela pensando nos dois irmãos. Criados para sabe-se lá o que. Talvez até para simplesmente morrerem em alguma batalha sem sentido algum. Mas todas as batalhas tem um sentido quando tem um coração diziam os seus aprendizados. Algo que era duro de aceitar. Que nunca aceitou totalmente, ou talvez nunca tenha entendido totalmente, por que essa necessidade de sofrimento para ganho de uns? E qual seria realmente esse ganho? A custa de tanta crueldade?

Britney olha para o firmamento, vendo os raios do sol passando por detrás das nuvens, e lembra de uma ocasião onde Pai Galo a mandara cuidar da horta das oferendas. Ela havia limpado todo o lugar, adubado a terra e tirado as lagartas das folhas. Passou a tarde toda nisso e estava com as costas doendo e vontade de ver o namorado. Quando terminou, foi guardar as ferramentas e falar com ele, que disse:

-Ah que bom, agora elas vão pudê acrescê rapido. Assuncê troco a terra?

-Sim Painho, e adubei também.

-Tu é eficiente fia. Matô as lagarta?

-Não né, tadinhas, eu tirei elas dos canteiros, até queimei a mão. Mas tirei todas e joguei no jardim.

Pai Galo fica sério por uns instantes, mas logo sorri e diz

-É fia, então o trabaio num terminô. Assuncê vai tê que vorta e matá todas as lagarta.

-Mas painho, elas não estão mais lá, que diferença faz?

-Que elas vão voltar e comer as planta. Vai lá, e depois a genti fala disso!

Ela sabia que não tinha conversa quando ele vinha com os “depois falamos nisso”. E com certeza ele saberia se ela o fez ou não. E já estava anoitecendo, o trabalho de encontrar todas seria longo. E demorou umas boas três horas até fazer todo o trabalho. E uma estranha sensação lhe invadia quando ela encontrava as lagartas. Elas paravam, quietas, como se estivessem esperando um golpe final. Britney se lembrou, assustada, que elas tiveram a mesma ação quando ela apenas as retirou de lá. Uma onda de pensamentos e sensações a invadiu, como se ela sentisse a dor de “ser uma lagarta apenas para ser morta”. E provocou uma crise de choro no final do “extermínio”. Ela ficou sentada, imunda de terra, e começando a ficar molhada de uma leve chuva que começava, chorando e olhando a lua.

-Que bom que acabou fia, entra que tá frio! Vai tomá um banho quente vá!

-Por que isso…. elas são vivas como a gente, por que eu que deveria dar um fim nelas, por que o senhor não planta essas suas verduras longe delas? Pode parecer besta sabe, mas eu senti que elas me olhavam nos olhos, sabia?

-Fia, tú devia é agradecer a Deus por essa lição. É craro que eu sabia de tudo isso, eu sabia que tu num ia matá as lagarta. Eu vi tudu isso antes de acontecê. E resolvi te dar essa lição, uma amostrinha de como o Poder afunciôna.

-Como…. assim?

Pai Galo senta ao lado da garota, que encosta em seu ombro, e começa a falar:

-Tudo é um jogo de Deus, o Uno, que é tudo e todos. É o Poder que nos cerca, é eu, é tú. É as lagarta, as foia que elas come. Tudin. Nois humanos temo que aprende que tudu isso num é nada pra nóis e nem nóis direito é. E quanto mais a gente vai aprendendo e mais evoluindo no poder, mais nóis fica confuso pq menos sentido faz. Assuncê num vai intendê, mas matá essas lagarta é um jogo que o Poder te mostrô. Pq assuncê tá fazendo exatamente o que Ele quer que tú faça, que é aprender isso, pra que eu num sei. Mas Ele sabe i isso tá baum?

Britney presta atenção no que ele fala, mas não consegue ver muito sentido, embora a expressão dele seja séria

-Pera Painho, falando assim eu posso sair por aí matando gente e dando a desculpa que Deus colocou a arma na minha mão e a pessoa na minha frente para eu fazer isso. Não faz sentido.

-Num faz pq Ele num ia fazê isso. Ou até ia. E se fosse ia fazê o maior sentido do mundo. Pra Ele, não pra tu. O que tu precisa aprendê é sabê quando tú tá fazendo as coisa de acordo com o poder ou tá fazendo só as tua coisa egoísta e culpando Ele. O que é bem diferente, é o caminho contrário. O que leva pra perdição.

-Painho, não, perai…. as duas coisas são praticamente iguais.

-Num é… é parecidu, mas teu coração vai sabê sempre. Por isso que em tudo que eu tou te ensinando eu tou tentando deixá teu coração o mais puro e o mais vivo pussível, pq esperta tú ja é, amorosa tb, e se teu coração sabê o qui fazê, tú tem tudo pra consegui o que muita genti não conseguiu e ajudá esse mundo de uma manera abesurda, que é simplesmente entendendo o Poder do Uno.

-Mas painho, isso parece complicado demais.

-E é! E se tu tentá entende com a cachola vai sê mais ainda. Mas de poco a poco tú vai chega lá.

As lembranças de Britney são subitamente interrompidas por Kyubi, que pula no colo dela e diz, reclamando:

-Eu TENTAVA dormir né, mas você não parava quieta e…. tá tudo bem?

-Desculpa Kyubi, eu tava lembrando de umas coisas que toca numa parte emocional minha que eu não entendo muito ainda. Eu estou bem sim.

-Alguma coisa parece que te aflige.

-Ah…. só um medo de nao saber fazer o certo na hora devida.

-Super específica você…..

-Ah.. haha! Me desculpa…. mas eu não sei explicar. É uma espécie de medo de saber “até onde eu existo”. Até onde o que eu estou fazendo reflete o que sou realmente, meus valores, o que acredito, é isso mesmo ou já chega a ser uma fuga para não fazer o que deve ser feito ou não ser o que devo ser. Ahn… entende?

-Credo Britney, isso parece os sermões que o Sensei dava para os discípulos. Eu lembro que nessas horas ele mandava meditar. Afastar os pensamentos, tranquilizar a mente, que aí o ser verdadeiro, e junto com eles, as respostas, brotam. Eu sei que você é agitada demais, faz mil coisas ao mesmo tempo. Talvez isso seja essa tal fuga que você fale. Mas pelo menos para mim você parece sincera em seus atos.

Britney dá um beijo na testa da raposinha

-Obrigada pelo conselho Kyubi. Eu entendi bem, e acho que sei o que posso fazer a respeito.

-Sem problemas! Agora, com licença que tá na hora do rango!

Não adianta entender com a cachola …. Lembrava ela das palavras dele, e respirando fundo, fechou o laptop e foi procurar por Lucas, pois tinha que lhe mostrar como as pedrinhas “voariam” na represa.

Fragmentação e Posse da Ação

Mago Sophuz