Novos Caminhos

Britney acabar de retornar da padaria onde tinha ido tomar o café da manhã. No caminho de volta, ponderava sobre o quão estava ficando parecida com Pai Galo em relação a sua opnião sobre hospitais: Carregados de esperança e sofrimentos, tão conflitantes. Ao mesmo tempo podiam ser o início, o final, um novo início ou até mesmo um novo final.

Entretanto esses pensamentos não eram importantes. Britney não podia deixar de se sentir mal pelo ferimento causado a Ranmaru, mesmo esse sendo necessário. E queria ficar ao seu lado para pelo menos demonstrar um apoio enquanto ele se recuperava. Não que fosse exatamente necessário, pois ele já estava praticamente bem. Ao que parece iria até mesmo sair hoje em vez de amanhã.

Parou por alguns momentos na capela do hospital, e ajoelhando-se diante do altar, começou a se harmonizar com com a Canção. Uma sensação nova lhe chamou a atenção. Não exatamente nova, ela já ocorreu alguns dias antes, quando o silêncio foi quebrado. A luz que sempre via começou a ter tons mais vívidos, e as cores foram ficando mais nítidas, não como o dourado de antes. E a Melodia da lança era o que parecia reger essas novas cores. E internamente, Britney sentia uma espécie de chamado, algo familiar, talvez dos tempos do treinamento de Pai Galo, mas parecia ser algo anterior.

Chegando finalmente ao quarto, Ranmaru dormia tranquilo. Britney liga o laptop e começa a rotina básica de conferir emails, checar notícias e afins, quando o telefone toca:

- Alô?

- Porra Britney, onde você tá, que merda é essa que você tá no hospital? Eu liguei no jornal e um viadinho atendeu, e foi do seu telefone, ele devia estar mexendo nas suas coisas caralho!!

- Oi Dimas! Nossa, eu preciso encontrar você, eu tenho uns presentes que te trouxe! Tudo bem?

- Tudo bem porra nenhuma, tão comendo meu cu aqui, um puta monte de problemas. Bom, eu tenho umas informações que você me pediu aqui daqueles casos. Mas porra, pra que desenterrar defunto caralho? E você não falou o que tá fazendo no hospital caralho!

- Não é nada comigo não, nem se preocupa. Eu tou com o Ran, ele se machucou e…

- Caralho Britney, pensei que você tinha largado o japonês de pau pequeno pra ficar com o boiola riquinho lá. Você não foi até pra Paris e tal?

- Não! o Ronald…. bem, não temos mais nada. Na verdade Paris foi para de certa forma… resolver tudo isso – Ela falou com um pesar nas palavras, ela ainda não conseguia aceitar que ele era um tecnocrata e queria tirar isso a limpo.

- Olha lá hein porra – e o tom de Dimas era consolador (do jeito dele, lógico) – Se esses caras machucarem você ou te deixarem triste me avisa, não tenho medo de milionário nem de carateca, eu taco em cana mesmo! Tua voz não me engana porra!

- Pode deixar que sei que sempre posso contar com você Dimas! E vamos almoçar hoje! – Britney olha de lado para Ranmaru, que ainda dormia. Eu preciso tomar um pouco de ar fora desse hospital.

- Opa, claro! Vamos lá no bar do Manéc…

- Nada de botequin hoje. Vamos no filé do Moraes. É o mais perto de boteco que entro hoje.

- Caralho menina, cinquenta reais um bife. Caralho! Beleza, me liga quando tiver saindo. Té mais tarde!

- Beijo Dimas, até.

Britney volta ao computador, e trabalha por volta de meia hora. Olha no relógio e vê que já são quase nove e meia. Decide ir até a cama, e afagando a cabeça de Ranmaru pergunta:

- Vai dormir o dia todo, dorminhoco?

- Grnjuylk nipih hanh amanhã – Ranmaru responde falando algo incompreensível.

E subitamente, como um estalo, que foi quase uma ordem, Britney tem a ideia de ir visitar a mãe. Não a vira desde a volta. E algo lhe dizia que ela deveria ir para lá esta manhã. Mais uma vez volta a tentar acordar Ranmaru, primeiro com um beijo que este corresponde ainda dormindo, e depois com a boa e velha sacudidela.

- Humm.. oi… Britney.

- Oi Ran. Tá melhor?

Ranmaru balança a cabeça afirmativamente enquanto boceja.

- Eu vou precisar dar uma saída, vou até minha mãe e depois almoçar com o Dimas. Mas não demoro, decanse ai…

- Tá bom Britney – ele responde com um semi bocejo e se aconchega na cama de novo. Já na porta ela diz sem olhar para trás:

- E cuidado com aquela sua enfermeira, só falta ela me matar com o olhar. – Ranmaru, porém, já dormia de novo.

Britney então vai até a casa da mãe, no bairro da Granja Julieta. No caminho, diversas lembranças da infância, como sempre ocorria quando ia visitar dona Mara. Britney tinha também a terrível mania de não avisar que estava indo. Mas teve sorte, a mãe estava em casa, embora fosse almoçar fora.

- Filha! Nossa, você tá linda, Paris te fez tudo isso é? entra!

- Oi mãe! Desculpa não ter vindo antes, tava morta de saudades! E bem, Paris teve a ver com isso de forma indireta. Eu te conto enquanto a gente conversar.

- Sim, claro, uma pena que eu terei que sair logo, mas podemos pelo menos conversar um pouco. Eu tava pensando em você nesses dias, comprei o sorvete que você adora até.

- Oba!

E na cozinha conversam por um bom tempo. Britney conta sobre a viagem, sobre Ronald, sobre Ranmaru ( e Mara diz que o próximo namorado não deve ser com a letra “R” para ela variar um pouco) e sobre seu emprego. Mara conta sobre as palestras que ministra e as aulas da faculdade, e a tal hora e meia acaba passando bem rápido. Mara vai terminar de se arrumar e Britney resolve ver o antigo quarto. Ela sorri vendo as antigas fotos, alguns brinquedos e bichos de pelúcia que ainda lá estavam. E olhando para a janela, vê o quintal, onde passava as tardes com Fringles e Elisa. E por alguns segundos ela tem a certeza de ver algo lá fora. Como se um vulto por ali passasse. E intrigada resolve ir checar. No caminho, Mara já estava de saída e se despede da filha, exigindo que ela voltasse com Ranmaru, pois queria conhece-lo.

Ela então vai até o quintal e tem mais uma vez a sensação de alguma presença por ali. A Melodia começava a se tornar evidente, e Britney então resolve fechar os olhos por alguns instantes e concentrar seus sentidos para o mundo Espiritual. Não deixa de sentir um calafrio quando abriu os olhos. Vinha estudando tudo isso sozinha e não estava acostumada com algumas nuances do mesmo. E em sua frente vê um homem, com uma roupa surrada do interior que aparentava ter uns 50 anos. Tirando o chapéu de palha, ele se dirige a Britney:

-Oya Ataia! Fia sabê eu? Eu Ondoiê sê. Fia ouvi chamá.

Britney percebeu se tratar de um Caboclo, do mesmo tipo dos que incorporavam nos médiuns do terreiro. Era a primeira vez, porém, que via um em “carne e osso” bem a sua frente, sem estar incorporado em ninguém. Lembrava porém ainda de toda a etiqueta e como agir com esses seres:

- Salve Seu Ondoiê. O que eu posso fazer pelo senhor?

- Fia escuta eu, eu escuta fia. Ajuda nun vai ucê não, ajuda eu vai. Eu vai lembra ucê, ucê vai falá. Eu escutá. – Ele então leva as mãos ao rosto de Britney, que imediatamente entra em transe e começa a ver cenas do mesmo lugar que estava, porém, anos atrás.

Pai Galo e Elisa estavam sentados, na varanda da ediculazinha aos fundos da casa. Elisa estava com seu cachimbo aceso, Pai Galo com seu charuto. Britney, na cena com uns 8 anos, estranhamente, não estava se importando com a fumaça. Pai Galo mantinha os olhos fechados e tinha um estranho mas reconfortante sorriso no rosto, enquanto Elisa, de olhos fechados, balançava a cabeça como num eterno “sim”. Dentro da casa principal, um jantar com os amigos políticos do pai, coisa que Britney odiava. Ela estava lá fora, escrevendo algo em um caderno, na verdade, um antigo diário que a mãe tinha lhe dado tempos atrás.

Ela subitamente para de escrever. Como se estivesse paralizada. Pai Galo e Elisa abrem os olhos e passar a olhar a menina. Britney vê que os olhos da pequena Britney estavam dirigidos para o meio da testa. Como quando em êxtase meditativo. A pequena Britney passa o caderno para Pai Galo, que começa a falar algo em algum idioma desconhecido. E começa a escrever no caderno, na verdade, a psicografar no caderno. Elisa segura nas mãos da garotinha e começa a falar algo num idioma que a Britney atual reconhecia algumas palavras, era Iorubá. Britney percebeu também que a pequenina não só entendia o que era dito como também apontava e fazia alguns sinais com as mãos.

A Melodia foi ficando mais e mais intensa, Britney mal podia se concentrar na cena. Começou a apenas ver lampejos: A pequena Britney caindo sobre a mesa, Elisa a pegando no colo e continuando a falar naquele Idioma, Pai Galo totalmente absorto em escrever no caderno. Por fim, ele termina e enrola o mesmo num pano. Canta alguma coisa enquanto dá os nós no pano. A Britney de hoje conhecia isso, era um encanto de proteção. E guarda o caderno em uma caixa qualquer num dos quartos da edícula.

- Fia num viu e vê. Eu vê pur seu vê. Eu vai ajuda.

Britney então seguiu o Caboclo até dentro da edícula, e lá ele pegou o antigo caderno e entregou para ela.

- Fia lê tudinho vai, intendê num vai. Lê i num vai, mas depois vai. Ataia virá fia vai i conhecê. Mais intendê antes pricisa vai.

- Mas Seu Ondoiê, eu não posso ser nenhuma Ataia (Grande Guerreiro), não tem como…

- Fia até otro dia onti isqueceu como amava e achava qui sabia. Fia é tudo que pricisa sê, fia só num sabe ainda. Fia lê, e quando intendê vai sabê. I quando sabê vai intendê. Guerra e paz é a mema coisa se for o qui Deus qué. Fia viu o que houvi, esse presenti e essa missão é só de fia.

Britney segura o caderno contra o corpo, enquanto ainda olha o Caboclo, que continua:

- Fia até hoje soube bem. Cofundiu um poco, mas sabeu. Confundi ainda vai, mas vai sabê. Num desiste nunca de sabê, di aprendê. Inda que não muito, aprenda sempri um bocadin. E de poco em poco os mistério fica fácil e tua missão fia cumpri. Eu me vai agora, Ataia eya, Ogum eya.

O celular tocando faz Britney voltar a si:

- Atende ai Britney, porra. Caixa postal pra mim caralho?

- Oi Dimas… desculpa… eu estava longe do celular. Já tá saindo?

- Já sim porra, vamos que tou com fome e sou capaz de comer um boi.

No caminho, Britney dá uma foleada no caderno que estava com ela. Começava realmente como um diário, com besteirinhas da infância. Havia também um cartãozinho com uma pintura de Ogum, orixá protetor dela, segundo a data e hora dos nascimento e outros cálculos. Foi o próprio Pai Galo que havia dado para ela quando lhe contou sobre isso. Ela já imaginava que isso tivesse a ver com a ligação que sentiu com a lança, e agora tinha certeza. Na parte que ele escreveu, porém, eram diversos pontos de umbanda, hinos, cânticos e chamadas. Evocações e desenhos diversos, algums mesmo em Yoruba.

O almoço com Dimas foi divertido como sempre, ele a fazendo rir contando dos casos que tinha em mãos, ele também sendo sádico contando sobre os mais pesados só para ver as caras dela. Passou uma boa meia hora também dizendo o quanto tinha razão sobre “ela e o japonês”, e mandou que fossem, mais uma vez, jantar num domingo na casa dele. Sobre pena de prisão caso não fossem. Ela deu os presentes (mas não todos, alguns ainda estavam na Capela) e foi voltando para o Hospital. No caminho resolveu comprar um sachezinho de café colombiano (Britney é tão fresca quanto Ronald para café e chás), pois a experiência de mais cedo a havia deixado exausta.

Na máquina de café, ela ia pensando em como iria dividir o tempo das férias entre estudar o caderno, ajudar Jonathan e aproveitar o tempo com Ranmaru. Uma correria porém, em direção ao quarto dele a chama a atenção, e ela corre para lá também, chegando a tempo de ver médicos (com pulso) desfribilando Ranmaru. Por um momento ela gela, e tanto a caneca vermelha quanto o sachê do caro café vão ao chão. Um dos enfermeiros vai até ela, falando algo que Britney nem presta atenção. Em sua mente ela apenas pensa em trazer Ranmaru de volta, magicamente se fosse preciso. Porém, no que ele vai impedir sua passagem, o medidor cardiaco volta a ser constante e sai do fúnebre uníssono. A cara de alívio (e espanto) nos médicos é aparente. Em Britney, apenas um sorriso de alívio, antes que ela mesma fraquejasse e sentasse (praticamente despencasse) no sofá do quarto. Graças a Deus, ela não teve um golpe maior do que poderia aguentar.

Novos Caminhos

Mago Sophuz