O Despertar

Britney e o Despertar

As opções para esse final de semana eram bem claras. Em casa, haveria tanto sábado quanto domingo reunião e coquetel político do partido do Pai. Opção que prontamente seria descartada. Ronald, o namorado, estaria entulhado em livros, já que sua semana de provas ainda não havia acabado. Ir a casa de amigos, também não era boa idéia. Porque iria ser uma noite como todas as outras, acabaria em alguma das infinitas festas da universadidade, que Britney não via o porquê de serem tão apreciadas pelos colegas “bichos”. Mas por sorte, a última opção era mais do que decente: Uma excursão pela antiga estrada que ligava São Paulo a Santos. A que se percorria a pé. “Pelo menos, já mato o sábado”, pensava a garota.

Já de manhã cedo no ponto de encontro, o Relógio da USP, Britney boceja sem muito pudor, enquanto o Professor e guia vai dando as instruções básicas de como se portar, o que esperar, como fazer e tudo o mais. Curiosa como sempre foi, ela apenas pensava em não ficar com muito sono durante o percurso.

O ônibus chega no Parque da Serra do Mar, onde fica o início da trilha. Andam um pouco, e logo chegam a estrada. E nas primeiras quatro horas, Britney apenas fez tirar fotos do percurso e imaginar-se como uma tropeira a um século e meio atrás chegando à “província” de São Paulo. Esse devaneios geralmente a deixavam para trás, tendo que correr para alcançar o grupo.

O grupo para para almoçar e descansar quando chegam ao final da “estrada” pavimentada. Junto a uma antiga construção que deveria servir como pousada. Afinal, chamava-se Pouso do Parnapiacaba. Britney pensou em perguntar o professor, mas se entreteu com um antigo mural de azulejos, onde se lia “Mapa Rodhoviario de São Paulo”, com estradas que nunca chegaram a existir, “exceto na cabeça de seus idealizadores e nessa parede”. Dentre elas, se econtrava a “Estrada da Maioridade”, que acabaram de percorrer. E sentada em uma pequena fonte, a garota come seu lanche e descansa um pouco os pés para o resto da excursão, a “parte realmente pesada” segundo o professor Macedão. Ainda teve tempo de tirar mais algumas fotos da pousada, da área ao seu redor e da paisagem que se via de um dos terraços.

E o passeio recomeça. Dessa vez, o caminho é de terra batida, e bem menor do que antes. Basicamente uma trilha melhorada.

-Então né, essa parte aqui não é aberta para o pessoal não. A gente tá vindo porque tem autorização né. – Explicava Macedão, quando alguns começavam a comentar sobre buracos e lama.

O grupo andou por mais umas duas horas e novamente parou, para um descanso de 20 minutos e para encherem os cantis/garrafas em uma pequena bica que havia ali por perto.

-Então né, esses banquinhos aqui é porque o pessoal parava aqui mesmo né. Por causa da bica. Tem uma nascente aqui perto sabe? Sabe o Tietê também? Ele nasce uns vinte quilômetros daqui também né. Então né. Também tem um pequeno mosterinho aqui perto. Era dos Jesuítas né.

Britney, curiosa como sempre, avisou Macedão, que lhe indicou o caminhozinho e disse para não demorar. E realmente não era longe dali, uns 3 minutos seguindo uma pequenina trilha. Britney pensava que seria uma espécie de retiro, mas acabou se decepcionando. Era apenas uma casinha, já em ruínas, com a vegetação cobrindo o que restava. E uma minúscula capelinha do lado direito. Essa um pouco menos destruída, com alguns banquinhos de pedra e um altar rústico ao fundo. Esculpido no próprio altar, uma pequena cruz. Uma pintura nos únicos azulejos da parede mostrava algo que “Um dia foi uma pintura de Nossa Senhora da Conceição”. Britney liga a câmera e entra, para tirar uma foto, e ao botar os pés para dentro do batente da minúscula capela, algo lhe chama a atenção. Um leve odor de lavanda, o mesmo das plantinhas que Elisa, uma antiga passadeira havia plantado em um vazinho no quintal de casa e que ela ainda novinha ficava cuidando e aguando, pois adorava o odor e a sensação de frescor que o mesmo dava. Britney até se traumatizou quando, um pouco mais velha, aos 12 anos, foi comprar um perfume de lavanda e o cheiro não tinha absolutamente NADA a ver com o dos pequenos brotinhos.

Por alguns segundos, a mente da garota ficou dividida entre a foto que iria tirar, o cheiro agradável do ambiente, lembranças de Elisa e lembrando que a planta era originaria da Ásia, não deveria ter por ali. Tirou uma boa meia dúzia de fotos e se preparava para voltar, quando com o canto dos olhos viu o que parecia ser um pequeno crucifixo de madeira. Chegou mais perto e se abaixou para pega-lo. Era um pequeno rosário de madeira.

No momento que ela pegou em sua mão e se levantou em seguida, se sentiu estranha. Pensou ter levantado muito rápido e que fosse aquela “labirintite instantânea”, que todos tem quando se levantam de maneira extremamente rápida. Mas a sensação de desequilíbrio não passou. Pelo contrário, piorou. Por um momento, Britney se viu cara a cara com o altar, mas tinha certeza que estava encarando a porta de saída. O mundo estava realmente girando!

Se escorando em um dos bancos de pedra, a garota fecha os olhos e senta no chão para tentar se recompor. Se lembra das aulas de Yôga e dos exercícios de respiração, que sempre a ajudaram quando passou mal por algum motivo. E se concentrando em sua respiração ela relaxa, mas ao mesmo tempo percebe que o odor de lavanda ficou bem mais forte, como se estivesse com a cara nas folhas. E ao mesmo tempo começou a escutar uma estranha cacofonia, bem baixinha, não daquelas que são milhares de vozes em meio a uma turba, mas simplesmente um som delicado que se misturava com outro, numa estranha harmonia, mas como se milhões estivesse tocando ao mesmo tempo.

A sensação fica mais intensa, e a garota acaba abrindo os olhos. A sensação de tontura passou, mas seu tormento não. Algo muito pior tomou o seu lugar. Logo ao abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi o banco no qual se escorou, e assim que seus olhos passaram por ele, ela começou a escutar a mesma cacofonia se tornar algo mais audível, com uma harmonia mais acentuada. Sensação que passou quando ela fechou os olhos e voltou quando ela abriu. Rapidamente, ela desvia os olhos, assustada. Mas para sua surpresa, cada local pelo qual seus olhos passam respondem com uma diferente tonalidade ou com uma totalmente diferente melodia. Apavorada, a garota senta de novo e fecha os olhos mais uma vez. Só que dessa vez, mesmo o escuro começa a “tocar” algo. E para piorar ainda mais, mesmo as imagens mentais de qualquer coisa que ela vinha a pensar fazia o mesmo.

Algo completamente novo e estranho, e mais do que isso, apavorante estava acontecendo. De pronto ela tentou raciocinar, mas desistiu quando viu que os próprios pensamentos produziam melodias. Resolveu apenas deixar isso passar, e deitando no chão, se encolhendo, foi aguardando, rezando para que tudo aquilo acabasse logo ou que ela acordasse desse pesadelo. No meio de seu medo, acabou mordendo o lábio, e o gosto ferroso do sangue acabou fazendo com que ela voltasse um pouco a si. Os sons não estavam mais assustando como antes, apenas incomodando demais porque NÃO DEVIAM estar ali, era algo totalmente absurdo que ela estivesse VENDO sons. Tomando fôlego, começa a se levantar, quando o gosto de sangue em sua boca começa a também emitir algo. E não apenas isso. O odor de lavanda que estava aumentando cada vez mais e mais tomou a forma de uma música.

Britney experimentava uma absurda sinestesia, podia-se dizer que todos os sentidos dela estavam captando uma harmonia, ou que tudo emitia. E o pior, o que ela ouvia também emitia algo. Foi quando Britney se deu conta que não estava ouvindo essa música com os OUVIDOS, e sim com os olhos, nariz, língua, com seu próprio tato, além dos proprios ouvidos. Ela podia sentir a canção do sangue correndo em seu corpo velozmente em seu corpo, o devagar canto das pedras dos bancos, a suave melodia do aroma de lavanda, a majestosa harmonia do azul do céu. Podia sentir a água da bica que passava pelo poço debaixo dela. Podia até sentir o rio tietê nascendo não muito longe dali. O pavor deu lugar primeiro a uma confusão generalizada, depois a uma curiosidade seguida por um êxtase de se sentir desprendido e livre. Por apenas alguns segundos, pois tudo ficou tão intenso e depois, como num estalar de dedos, sumiu. Tudo se apagou e silenciou.

-Bem vinda de volta! – Britney escuta uma voz estranha, que era do Médico que estava no quarto. A seu lado estavam sua mãe Mara, e Ronald.

-O que aconteceu comigo? – Perguntou curiosa e assutada – Não lembro de nada….quase nada.

- Você teve uma estafa mental garota. É quando o sistema nervoso é exigido demais e acaba-se desmaiando. As vezes não tem volta, eu fiquei preocupado porque o socorro demorou a chegar. Que bom que tudo ocorreu bem.

-Eu me senti… estranha. Não lembro direito o que houve – diz a garota, mas as lembranças começaram a voltar – Mas não faço idéia do porquê de tudo isso, eu não sou estressada e estava me descontraindo em um passeio.

-As vezes apenas acontece. A mente humana ainda é a coisa mais desconhecida na medicina. De qualquer forma, mais alguns exames e você poderá ter alta. Vou providenciar para que isso não demore, com licença.

A mãe e o namorado abraçam e conversam com Britney. Ela preferiu não contar nada, apenas que desmaiou “quando fui tirar uma foto” e que não lembrava muita coisa. Mara diz:

-Eu rezei por você, que bom que nada de grave te aconteceu. Eu fiquei desesperada quando soube que você ficou quase duas horas esperando socorro desmaida no meio da selva. Eu tive sorte que o Pai Galo tinha ido em casa pegar uns charutos que um amigo do seu pai tinha deixado para ele. Eu me acalmei conversando e rezando com ele.

Britney notou a cara que Ronald fez. Ele sempre achou que Pai Galo e todos os umbandistas fossem apenas macumbeiros que queriam enganar gente rica. Mas Britney sempre gostou de Pai Galo. Este era um antigo amigo de Elisa, que por meio desta ficou amigo de seus pais, mais especificamente de sua mãe, que era mais religiosa que o pai, que praticamente não o era. Ela gostava de ouvir as historias que ele contava, sobre quase tudo, sentada no pequeno balcão na churrasqueira nos fundos da casa, perto dos vasos de lavanda. A única coisa que Britney detestava era o cheiro do charuto, mas Pai Galo evitava o quanto desse fumar perto da mesma.

-Ele esteve aqui – Ronald disse – Disse que vai voltar para te ver, quando estiver saindo. Disse “não gostar de hospitais”.

E realmente, Pai Galo apareceu na hora que estavam saindo para o estacionamento.

-Ô fia! Que bom que assuncê tá boa já. Eu sabia que nada di mais ia acontecê, mas a gente sempre se preocupa né!

-Tem problema não “painho”, precisa mais que uma estafa mental para me derrubar.

-Dona Mara eu vô te di que fazê uns passes na menina, pra tirar a energia ruim do hospital

-Tudo bem Painho – Britney antecipou a resposta da mãe e de Ronald – Pode ir lá amanha, hoje eu quero descansar um pouco ainda.

-Sim, pode ir amanha, só ligue antes para saber se não saimos.

-Tá acumbinado! Ó fia, assunce use isso para se proteger – disse Pai Galo dando para Britney o mesmo rosário que ela havia achado – Isso é seu agora e assucê precisa tomá conta.

Britney na hora gelou por um instante, apavorada. Ia dizer algo, mas Pai Galo a olhou de uma súbita forma que ela sentiu-se totalmente calma e pegou a peça.

-Amanha eu te falo disso fia. Descansa lá todos oceis! – Diz Pai Galo se despedindo. Britney porém sentiu que algo estava para acontecer com ela. Principalmente porque sempre que concentrava a atenção no rosário, sentia muito de leve a mesma melodia de antes. Porém sem a confusão sinestésica dessa vez.

O Despertar

Mago Sophuz