Um Domingo Qualquer - Britney

A lua cheia formava um gigantesco disco prateado refletido na Billings. Na sacada da Capela, Britney e Xana, em um silêncio extremamente contrastante com a festa dos vencedores que corria no refeitorio ali perto, observavam as calmas águas e sentiam o frio sopro da madrugada. Britney estava de pé, na beira da secada com seu rosário em mãos e parecia longe dali, com os pensamentos extremamente distantes. Xana estava sentada ao lado dela com seu sangen (instrumento de corda) no colo, o arco em mãos, naqueles momentos onde a inspiração está lentamente entrando no corpo e os sentidos ficam mais lentos, apenas sentindo o que esta por vir.

Uma brisa um pouco mais forte foi o sinal para ambas. Xana começou uma suave e baixa melodia, e no que finalizou o quarto compasso, Britney começou a cantar. Começou com alguns versos de uma antiga canção da infância sobre a lua, mas depois, alguma inspiração, mágica, divina ou seja lá qual for surgiu e as palavras foram simplesmente surgindo, e a lua e a represa foram as testemunhas de uma belísssima obra de arte dessas que acontecem apenas uma vez. No que terminam, trocam olhares, como se agradecendo uma a outra pelo que acabaram de fazer. Palmas lentamente compassadas e passos de um pesado sapato, porém, desviam a atenção das duas:

- Peculiar. Não deixo de dizer que é belo, mas é peculiar o quanto essa Capela me surpreende – e a silhueta de Edward aparece por detrás das rochas da cascata – Não imaginaria que no final de uma sanguinária exibição de pancadaria e ao sair de um festejo onde a competição de quem tem mais testosterona no corpo é o prato principal eu encontraria uma Akasha trapaceada e uma Corista dececpcionada trabalhando em tão bela peça.

As duas olham para ele um tanto que ponderando sobre o que ele acabou de dizer, e com seu semblante impassível ele emenda:

- Isso foi um elogio caso estejam em dúvida.

- Você esteve aqui o tempo todo? – Xana pergunta, um tanto quanto corada.

- Quase. Estava saindo daquela balbúrdia e no caminho ouvi seu instrumento e a voz de Britney. E resolvi vir até aqui. Gostei do que ouvi e resolvi ficar até o final.

- Bem… obrigada. Foi algo improvisado mas realmente foi muito belo. – Britney respondeu.

- Imagino que sim. Imagino que a inspiração teve o mesmo motivo. Da pessoa que deixou vocês duas decepcionadas. – Edward olha a cara das duas. Pensamentos sádicos passam por sua mente, mas a veia de professor fala mais alto, a de ranzinza mais alto ainda e ele resolve continuar, mas levando a conversa para outro ponto – Eu… não costumo ficar falando sobre besteiras como essa, mas posso ser sincero?

Xana já fecha a cara, mas Britney, ainda desconfiada mas também sentindo a boa intenção dele, responde:

- ... Vá em frente….

- Vocês estão sendo idiotas.

- É isso que tem pra dizer? – Britney responde, agora também fechando a cara.

- Não. Você… por ficar fantasiando e esperando demais de seu namorado e assim se tornando vulnerável para se decepcionar por uma besteira. Acredito que deva ter coisas bem mais importantes para se preocupar, como seu outro namorado tecnocarata, as crianças, hum, sua tradição?

- E você – olhando para Xana, que parecia se sentir ofendida ela mesma com o que ele disse para Britney – deveria entender que algumas pessoas tem certas prioridades. Como talvez a vitória. E não se importam com os meios para isso. Talvez o fato de ele lhe ter dado abrigo ou de ser bobo demais fez você confundir ingenuidade com pureza.

A cara das duas era aquela amarga cara de quando alguem fala aquela verdade que se tenta ignorar por algum motivo qualquer. Edward vira as costas e começa a ir embora, mas para na porta e vira mais uma vez. Britney poderia jurar que ele estava diferente no que começou a falar:

- Isso não é para vocês julgarem ele ou qualquer pessoa. Simplesmente para que não se machuquem por causa de outras pessoas. Isso pode fazer com que o tempo mude totalmente e lhes deixem alheias ao que se sente. E esse NÃO é um bom caminho. Parabéns pela música – e ele se retira.

- Ele não deveria falar coisas assim do Sifu, LianJin(olhos dourados)! Quem ele pensa que é?

- Ele falou de nós…. – Britney mais uma vez olhava para a lua – E embora direto demais, ele falou a verdade. Isso tudo aconteceu porque nós nos permitimos ser vulneráveis a isso. Eu pelo menos fiz isso. De qualquer forma foi bom esse safanão para dar uma acordada. Que droga… ultimamente eu tou precisando sempre disso.

- Não ache que o Sifu fez isso porque não dá tanta importância para você LianJin, tenho certeza que ele ama você.

- Não acho isso não. O problema é comigo mesmo. Mas eu supero, como sempre. E de qualquer forma, foi até que bom que isso aconteceu. Isso nos aproximou bastante e estou adorando ser sua amiga. Obrigada mais uma vez pelo convite!

- A honra foi minha.

- Bom, o dojo está bagunçado demais, e como estou de mau humor demais para deixar o Ran entrar no quarto, quer dormir no sofá cama? Senão até acabar a arrumação vai ser de manhã já e você parece cansada.

- Claro LianJin, obrigada.

E enquanto ela foi buscar suas coisas, Britney foi caçar as crianças para leva-las para dormir. Foi pensando em coisas para fazer durante a semana, começando pelo próprio domingo.

Britney acorda cedo, e o domingo é um tanto chuvoso. Ela tinha alguns lugares para ir, e planejava usar a moto, mas o que parece, teria que ir de carro. Toma banho e um rápido café, e dirige até o centro de São Paulo, em direção ao mosteiro de São Bento. Já fazia tempo que ela não aparecia por lá e sentia falta das missas com cantos gregorianos que sempre havia ali.

Britney estava sobriamente vestida, com uma calça e blusa pretas. Segurando o rosário em suas mãos, senteda em seu lugar, ia harmonizando toda a energia bruta das orações em um padrão mais sutil e jogando-a na Teia da existência. Essa fora uma das primeiras coisa que aprendeu com D. Lucas. Ele dizia que assim nós ao mesmo tempo fortaleceriamos nossa fé e a fé das pessoas. E era realmente um trabalho gratificante, pois existia de certa forma um feedback na ressonância do local e na tranquilidade e conforto nos corações de quem lá estava.

E quase que no ápice dessa harmonia, Britney sente uma estranha dissonância. Na verdade poderia mais ser chamado de uma interferência, algo que estava resistindo a toda a Harmonia do local ao mesmo tempo em que procurava desesperadamente por ela. Britney conhecia bem esse tipo de situação, era uma das coisas que mais fora ensinada a lidar. Porém nunca tinha presenciado tal fato ainda, nunca havia visto o fenômeno do Despertar acontecendo com alguem antes. E ao que parece, de forma bastante traumática.

Olhando magicamente, ela percebe o Avatar de um rapaz que aparenta ter seus 20 anos tentando criar um contato permanente, mas enfrenta uma resistência que é quase como um silêncio. A mente dele estava em frangalhos, ao que parece ele se perdia desesperadamente na tarefa impossível de achar uma explicação plausível para o que estava acontecendo, resistindo fortemente a acreditar que havia algo externo, juntamente com um medo de enlouquecer ou perder o controle. Internamente existia a vontade de pedir ajuda a Deus qualquer que fosse, mas sua mente lutava contra isso.

Britney sabia que isso era uma batalha que ele não iria vencer, mas sentiu que o esforço da resistência estava até mesmo colocando a integridade física do tal rapaz em perigo, ele mal se mantinha sentado no banco dele. A energia do local, a qual Britney passara a manhã inteira trabalhando, ao que parece estava confortando o rapaz ao mesmo tempo em que lentamente penetrava em sua essência, e o esforço de resistência dele não iria suportar uma hora. Decidiu que o melhor seria tirar ele dali.

Tocando de leve em seu ombro, Britney disse que ficar como estava seria pior, que ela poderia ajuda-lo, mas em outro lugar. O garoto olha para ela por alguns instantes, mas resolve segui-la. E em silêncio, ambos caminham até o estacionamento onde o carro dela estava. Um pouco antes ainda, Britney para em uma lanchonete no meio do caminho e compra uma garrafa de água mineral:

- Beba, vai te fazer bem.

- Quem… é você? Como sabia que eu estava ven… que eu não estava bem? – O olhar do garoto era um tanto quanto desconfiado, mas com um certo alívio.

- Pode me chamar de Britney. Quanto ao que você estava e ainda está passando, bom, é algo complicado de se explicar, mas eu já passei por algo parecido. Onde você mora, eu posso te dar uma carona.

- Eu… bom, é melhor eu aceitar, minha casa é um pouco longe. A propósito, meu nome é Roger, e…. bom, obrigado por ter me tirado de lá, embora eu não esteja muito certo do que esteja acontecendo ou mesmo do que você está fazendo… e…. aliás, espere – a expressão dele muda – é melhor eu não ir para a casa. Lá geralmente a mesma coisa acontece e tem minha mãe e….

- Olha Roger, é o melhor. Você precisa descansar. Seu corpo, sua cara, tá tudo pedindo socorro. Acredite, você precisa. Entre, sim? – Britney falou mais mandando do que pedindo, de pé, ao lado da porta do motorista.

Roger por alguns momentos se sente ofendido, sempre odiara ter pessoas lhe dizendo o que fazer. Porém, alguma coisa nas palavras dela emitiam uma lógica (algo que ele muito prezava) e uma tranquilidade que ele não sentia faz um bom tempo. Não gostava muito de sua casa, mas, realmente, ele estava PRECISANDO demais de sua cama. Resolve então entrar. Afinal, quem sabe poderia obter algumas respostas, e não era todo dia que mulheres bonitas lhe ofereciam carona.

Percorreram grande parte do percurso em silêncio, até que Britney perguntou:

- Quanto tempo faz que você tá se sentindo confuso assim, Roger?

- Ah… umas duas semanas…. mas, como você sabe dessa confusão toda? O que tá acontecendo afinal? – Ele olha inquiridor para Britney, respira fundo, e sem entender muito o porquê, começa a falar – Eu… minha vida tá uma bagunça. Coisas sem sentido tão acontecendo, eu ouço vozes, eu vejo coisas, achei que estivesse ficando louco, mas fui no médico e não tinha nada. Eu… sinto sensações que antes não existiam, que eu não consigo entender. É como se o mundo todo estivesse mudando ao meu redor, ou pior, que eu estivesse mudando a maneira de enxergar as coisas, mas para algo totalmente sem sentido. Eu me sinto um palhaço falando isso, mas parece que por eu resitir a acreditar em coisas inexplicaveis a vida toda Deus resolveu tirar uma com a minha cara e mostrar “tu tá errado malandro”. E o pior, ACREDITAR NISSO ME CONFORTA!! – A voz dele foi ficando mais pesada, como se ele estivesse segurando algo – Eu…. estou sem saber o que fazer…eu… preciso de ajuda, mas de quem?

- O que você falou faz sentido sabia? – Britney falou sem tirar os olhos da estrada – As vezes o mundo todo parece mudar para algo sem sentido. E acreditar que é Deus tirando um sarro de você pelo menos faz parecer mais engraçado. E rir é melhor que chorar por isso, não?

- Você tá tirando uma com a minha cara? – E Roger estava nervoso mais uma vez – Eu não devia falar nada, você fica falando merda ai, o que falei não faz sentido nenhum ora, é mais fácil achar que é uma esquizofrênia. Não faz sentido, sabia, nenhum! Nenhum mesmo

- É… não faz… como não faria… – E Britney dá uma pequena agitada nos sininhos de bambu presos ao retrovisor – Como não faria eu dizer que sua mãe vai ligar em quatro minutos.

- Minha mãe nem teria como porque meu celular está desligado, eu não queria que ela me incomodasse. Onde quer chegar com tudo isso?

- Se eu fosse você eu iria conferir, você ainda pode desligar e fazer eu quebrar a cara.

Um sorriso de orgulho e desdém toma o rosto de Roger:

- Eu não preciso, eu tou certo do que fiz.

Britney continua a dirigir, e pouco depois já encosta no meio fio e vira para Roger, olhando intensamente para ele, que fica um pouco receoso. Ela então abre um sorriso e diz:

- Tadinho….

- O que você quer… – E Roger é interrompido pelo toque do celular. E fica realmente, branco e sem ação.

Britney volta a dirigir, e Roger conversa, gagujando totalmente, com sua mãe. Terminando, olha para Britney, assustado mas imensamente curioso:

- Como fez isso? O que você fez?

- Nada… uma coisinha sem sentido só….melhor você guardar ela com esse susto e rir depois do que chorar tentando entender… não é?

- Pera, eu quero saber, não tinha como. Você… você não é amiga da minha mãe e combinou isso? Você me hipnotizou? Será que tou tendo alucinações…. eu.

- Roger! – E Britney usa o famoso tom suave porém ao mesmo tempo enérgico dela – Não escutou o que eu acabei de dizer? Esqueça, não tente entender, você não vai entender – Britney então vira e olha profundamente o garoto nos olhos – Você vai ter que esquecer um monte de coisas que parecia fazer sentido e aprender um monte que não faz sentido se quiser algum dia superar essa confusão. Eu vou te ajudar nisso, mas você vai precisar querer isso. Você quer realmente “entender” tudo isso?

- Melhor você olhar para a rua….

- Responde minha pergunta Roger, você estaria disposto a deixar toda essa sua resistência de simplesmente entender que “Deus tira sarro” ou a “garota adivinhou o telefonema” ou mesmo “ela tá dirigindo sem olhar” e simplesmente aceitar que isso acontece?

A rua terminaria em um muro de uma fábrica, e Britney mantinha os olhos fixos nos dele. A velocidade estava razoavelmente alta. Roger já estava assustado com o que ocorreu antes, e só pensava que a pior coisa do mundo foi ter aceitado carona dessa louca.

- Tá! Tá, eu faço isso, agora dirige direito pelo amor de Deus!

- Que bom – E a expressão de Britney suavizou, mas ela ainda olhava pra ele – E até de Deus você lembra na hora do apuro – E ainda olhando para ele, ela diminui a velocidade e faz a curva da rua da casa dele – Sabe, vocês racionalizadores demais só funcionam com sustos ou choques mesmo.

Finalmente chegam a casa dele. Roger ainda está assustado com tudo o que viu, mas o cansaço realmente bateu agora. Ele se despede, e pergunta, pois uma curiosidade sem fim e uma estranha sensação haviam brotado em seu ser:

- Vou te ver de novo?

- Vai! – E Britney dá para ele seu cartão – Me ligue depois que estiver descansado, ou se estiver mal ou mesmo se só quiser conversar. Mas é importante que faça o que se comprometeu a fazer. Ou tudo só vai piorar, e eu posso vir tirar satisfações de formas assustadoras como as de antes – Britney completa rindo, mas ele fica sério como se não fosse uma piada.

- Tá… certo. Ei! – Ele diz depois que pega o cartão e vê o nome completo dela – você é mesmo a Britney Ranseur? Deus… eu pensei que você fosse uma ve…

- Uma velha reporter ranzinza não? Pois é… as aparências enganam. Você também parece um pouco mais velho que seus dezoito anos. Agora vá descansar. – E ela entra de volta no carro, pensando em ir comer algo, pois já passava da hora do almoço e ela estava faminta.

Já de volta a Capela, Britney dedica toda a tarde para estudar a Lança de São Jorge e do Caderno de Ogum que Pai Galo trasncrevera. Tal tarefa a deixa absorta e concentradíssima. Ela resolve escrever sobre suas descobertas, para futuras avaliações e para também ter um roteiro sobre o que estudar.

E de noite, chama as crianças e Ranmaru para um programa “Família” num shopping qualquer, com direito a janta, presentes e cinema.

Um Domingo Qualquer - Britney

Mago Sophuz